(Imagem ilustrativa/Unsplash) Outro dia, num bate-papo entre sobreviventes da era pré-digital, daqueles que sabem o que é rebobinar fita cassete com caneta Bic, começamos a falar sobre como era a vida sem celular. Parece que relatamos aventuras jurássicas, mas estamos falando de três décadas atrás, o que, em termos de história da humanidade, não é nem um grão de areia. Já em termos de transformação social, foi praticamente o asteroide que acabou com o Tiranossauro Rex e seus colegas de bairro. Quando começo a lembrar da vez em que fiquei sem gasolina no meio da rua e precisei bater palma em uma casa desconhecida para pedir ajuda (e torcer para que o morador fosse solidário e não desconfiado), percebo que realmente pertenço ao período Cretáceo. Ou das vezes em que o namorado marcava horário para ligar no telefone fixo, mas resolvia atrasar cinco minutos, e nesse exato intervalo eu descia para comprar pão para minha mãe. Resultado: ligação perdida, drama instalado e uma semana inteira de teorias conspiratórias. E havia também o clássico “vou te esperar na porta do cinema”. Sem celular. Sem confirmação. Sem localização em tempo real. Se um chegasse na porta errada, porque sempre havia duas, era o fim do relacionamento antes mesmo de começar. Hoje o aplicativo avisa até quantos metros faltam. Antes, a gente confiava no destino e na boa vontade. A gente tinha que se virar. E se virava. Quando comecei na profissão de jornalista, nada vinha com um clique. Para conseguir uma estatística que hoje aparece em segundos na tela, era preciso cultivar fonte, tomar café, ligar para três ramais, insistir com educação e, quando o fax finalmente cuspia aquele papel térmico quase apagado, era uma comemoração digna de gol em final de campeonato. Informação tinha cheiro, tinha percurso, tinha suor. Hoje os dados surgem instantaneamente. E isso é extraordinário. Mas havia algo de formador naquela dificuldade. Eram necessárias relações humanas, jogo de cintura, memória, rapidez mental, improviso. Imagino que em todas as profissões fosse assim. A limitação nos moldava versáteis. Sem dúvida, essa geração que já nasceu digital, e que agora convive naturalmente com a inteligência artificial, desenvolverá competências que talvez eu jamais alcance. Eles pensam em múltiplas telas, resolvem tudo em segundos e têm uma familiaridade tecnológica quase orgânica. Mas talvez lhes falte aquele treino invisível de quem precisou aprender a fazer acontecer sem tutorial, sem GPS e sem a Alexa. E tudo bem. Sempre foi assim. A humanidade é uma sequência de reinvenções. Talvez a revolução digital seja ainda mais profunda que a Industrial. Talvez estejamos no meio de uma transformação cujo impacto só será totalmente compreendido quando já estivermos aposentados da história. Torço apenas para que o tempo economizado com tantas facilidades seja usado para viver. Para olhar no olho. Para errar o endereço e dar risada depois. Para ter histórias que não dependam de wi-fi. Porque a vida passa rápido. E a gente não fica aqui tempo o bastante para assistir à próxima revolução.