(Reprodução) Minha mãe tinha um repertório de frases que, na infância, eu aceitava como verdades absolutas. Não havia Google para conferir, muito menos inteligência artificial para perguntar se aquilo fazia algum sentido. Então, se a mãe falou, estava falado. E a gente ficava com aquilo na cabeça, tentando entender. Quando eu dizia que não estava com sono e não queria dormir, ela vinha com uma solução definitiva: “Fecha um olho e esquece de abrir o outro”. Eu achava aquilo enigmático. Como assim esquecer de abrir o outro? Será que era possível? Será que o olho ficava fechado para sempre? Provavelmente, eu passava tanto tempo divagando sobre a frase que, quando percebia, já tinha dormido. Minha mãe, portanto, estava certa. Só não sei se pela sabedoria ou pelo cansaço provocado. Outra era quando aparecia uma formiga no bolo que tinha ficado do lado de fora. “Faz bem para a vista”. Como assim, uma formiga fazia bem para a vista? Aí vinha a explicação, irrefutável: “Já viu formiga de óculos?”. Pronto. Caso encerrado. O mesmo acontecia com a cenoura. Diziam que fazia bem para os olhos porque coelho comia. E nós acreditávamos. O Pernalonga ajudava bastante nessa teoria. Nunca parei para perguntar se coelho realmente come cenoura daquele jeito ou se era apenas uma licença poética dos desenhos animados. Mas, naquela época, se tinha coelho, tinha cenoura. Se tinha cenoura, tinha olho bom. Ciência doméstica. E criança leva tudo ao pé da letra. Durante muito tempo fiquei imaginando uma casa de ferreiro com espetos de madeira. “Em casa de ferreiro, espeto é de pau.” Nunca conheci um ferreiro, mas a imagem estava criada na minha mente. Imaginava o sujeito passando o dia inteiro trabalhando com ferro e, na hora de comer, pegando um espeto de pau. Não fazia muito sentido, mas ditado não se discute. Também adorava “a galinha do vizinho bota ovo amarelinho”. Era uma das mais usadas lá em casa, principalmente quando a gente elogiava a comida na casa de alguma amiga. “Nossa, que carne assada gostosa!” Pronto. Lá vinha a galinha do vizinho. Era quase uma advertência moral para não achar que a receita alheia era melhor que a nossa. Aliás, impressionante como os adultos daquele tempo confiavam nas galinhas para ensinar princípios de vida. Não bote todos os ovos na mesma cesta. Galinha que muito cacareja, pouco bota. Mais vale um ovo hoje do que uma galinha amanhã. Não conte com o ovo antes de a galinha botar. Acho que muitos desses ditados nasceram quando as pessoas ainda criavam galinhas no quintal, plantavam e colhiam, conheciam o ferreiro da cidade e sabiam de onde vinha o leite. Faz sentido. O mundo dos ditados era rural, doméstico e cheio de bichos. O problema é que as expressões não acompanharam o tempo. Ninguém criou um “quem com IA fere, com IA será ferido”. Não temos um “nem tudo que reluz é smartphone”. E talvez esteja faltando uma boa coleção de provérbios para os nossos novos problemas. Algo como: “Mais vale um carregador na mão do que dois em casa.” Ou: “Quem compartilha sem ler, depois vem se explicar.” “A galinha do vizinho bota ovo amarelinho” talvez pudesse ser adaptado para os tempos atuais: “A vida do vizinho no Instagram parece sempre melhor”. Porque essa, pelo menos, continua verdadeira. No fundo, acho que o que ficou dessas frases não foi exatamente a lógica. Foi o jeito como nossas mães e avós encontravam uma explicação para tudo. Se a gente perguntava demais, vinha um ditado. Se insistia, vinha outro. E nós acreditávamos porque mãe e avó eram uma espécie de Google antes do Google: a resposta vinha pronta, com a autoridade de quem sabia das coisas. Hoje, quando digo para minhas sobrinhas “fecha um olho e esquece de abrir o outro”, falo menos para elas dormirem e muito mais para elas lembrarem.