(EBC) Outro dia, aqui na redação, estávamos contando para a estagiária, de 20 anos, como era fazer supermercado nos anos 70, 80 e começo dos 90. Ela nos olhava com uma expressão que misturava curiosidade e incredulidade. Até que chegamos aos biscoitos. Não, não havia aquelas prateleiras intermináveis de hoje, com dezenas de marcas, formatos, sabores, recheios e versões de tudo. Iogurte também não ocupava todo um corredor. E muitos dos produtos que hoje entram naturalmente no carrinho eram considerados supérfluos. Não apenas porque não eram essenciais, mas porque eram caros. Na minha casa, como percebi nesse bate-papo, acontecia o mesmo que em boa parte das famílias de classe média: biscoitos, iogurtes e outras pequenas tentações apareciam timidamente na famosa compra do mês. E havia uma regra silenciosa: era preciso fazer render. Só que aí entrava um problema sério. A gente comia tudo de uma vez. Ou passava o resto do mês administrando o estoque de biscoitos como se fosse reserva cambial. “Não come tudo hoje porque depois não tem.” O depois, evidentemente, chegava antes do previsto. A compra do mês era quase uma instituição nacional. Assim que o salário entrava, o trabalhador corria para o supermercado. Não por organização doméstica, exatamente. Era sobrevivência financeira. Os temidos remarcadores estavam à espreita. O preço que estava na prateleira pela manhã podia ser outro à tarde. E podia mudar de novo no dia seguinte. Havia funcionários cuja missão era percorrer os corredores trocando etiquetas. Nada de código de barras. Nada de passar o produto pelo leitor e ouvir aquele bip. Cada mercadoria tinha seu preço marcado. No caixa, o operador precisava ser rápido na digitação. E o cupom fiscal que saía da máquina parecia mais uma tira de papel de calculadora do que uma lista de compras. Não era aquela coisa organizada de hoje, com cada produto identificado, quantidade, valor e total. Era só preço e todo peso da inflação. E que inflação. No fim dos anos 1980, o Brasil chegou a registrar taxas anuais próximas de 5.000%. Para quem nasceu depois do Plano Real, parece ficção científica. Para quem viveu, era simplesmente a vida. O preço subia todos os dias ou várias vezes em 24 horas. A estagiária ficou chocada. E nós, que estávamos contando aquilo com a naturalidade de quem fala sobre uma infância distante, percebemos novamente o tamanho da mudança. Talvez seja por isso que uma parte da nossa geração tenha desenvolvido uma relação emocional com a estabilidade dos preços. Depois de tantos planos econômicos, mudanças de moeda, congelamentos, remarcações e aquela sensação permanente de que o dinheiro derretia dentro da carteira, ver um preço ficar no mesmo lugar por algum tempo virou bênção. Hoje, curiosamente, eu não faço compra de mês. Família pequena não combina muito com despensa abarrotada. Gosto de comprar o que vou usar, aproveitar uma oferta aqui, outra ali, experimentar uma novidade acolá. A diferença é que agora há novidades demais. A prateleira das bolachas, por exemplo, continuo evitando. Talvez por hábito, talvez porque ainda tenho dentro de mim aquela menina que sabia que quando o pacote chegava em casa era melhor pensar duas vezes antes de abrir. Mas confesso: aderi a uma infinidade de outros produtos que meus pais provavelmente olhariam com aquela expressão conhecida e perguntariam: “Mas isso é necessário?” Talvez não. Só que, depois de tantos anos de prateleiras acanhadas, preços que corriam mais rápido que a gente e compras feitas na ânsia contra a inflação, alguma extravagância a gente merece.