A bicicleta não serve apenas para levar a gente de um ponto a outro. Ela muda a velocidade do olhar. Tenho criado o hábito de pedalar sempre que o tempo deixa. O do céu e o do relógio. Nem sempre os dois conspiram a favor, mas quando isso acontece, lá vou eu. E, curiosamente, quanto mais devagar pedalo, mais longe pareço ir. É que gosto de ver a cidade passando. Se a intenção fosse apenas fazer exercício, bastaria apertar o ritmo, sentir as pernas queimarem e voltar para casa com a consciência tranquila. Mas descobri outro prazer: reduzir a velocidade para prestar atenção. De bicicleta, Santos revela detalhes que passam despercebidos da janela do carro. As árvores das ciclovias dos canais, por exemplo. Algumas parecem se inclinar de propósito sobre a pista, como quem diz: “Ei, olha para mim”. E é bom olhar. Não apenas pela beleza, mas porque, se a distração vencer, elas têm potencial para me catapultar da bicicleta. Também vou acompanhando a cidade crescer. Nunca vi tantos edifícios sendo erguidos ao mesmo tempo. Em contraste, ainda há ruas horizontais, onde casas preservam jardins, árvores antigas e pequenos caprichos. Outro dia passei por uma que exibia uma família inteira de gnomos de gesso escondida entre as plantas. Duvido que eu os tivesse notado de carro. O domingo, então, é um espetáculo à parte. Com a orla fechada para os veículos, a cidade muda de personalidade. Crianças ocupam o asfalto como se ele sempre tivesse sido delas. Adultos saem dos casulos para caminhar, correr, pedalar, remar. Há uma energia boa no ar. Infelizmente, cresce junto um incômodo. As motos elétricas que circulam pela ciclovia estão cada vez maiores e mais rápidas. Algumas mal cabem na faixa, ocupam os dois sentidos e passam em velocidades incompatíveis com quem pedala ou caminha. Não sei qual é a solução, mas sei que ela precisa chegar antes dos acidentes. Há problemas que não deveriam esperar uma tragédia para serem levados a sério. Enquanto isso, sigo desviando. Quase sempre termino o passeio na Ponta da Praia. Não me canso daquele cenário em que navios, veleiros e canoas dividem a mesma paisagem, com a Fortaleza da Barra desenhando o fundo da fotografia. É um daqueles lugares que parecem diferentes todos os dias, embora sejam exatamente os mesmos. Se estou de folga, estico até o Emissário. No caminho, faço uma parada obrigatória no quiosque do meu amigo Rabbit, que deve ser o único quiosque especializado em caipirinhas do Brasil, provavelmente do mundo. E, como tudo muda, ele agora prepara versões sem álcool que são surpreendentemente deliciosas. É curioso perceber como os hábitos transformam a cidade. Ou talvez seja o contrário. Afinal, a Santos que vejo hoje provavelmente já estava ali. Quem mudou fui eu... ou será que não? *Jornalista e gastróloga fernanda.lopes@grupo-tribuna.com