(Vanessa Rodrigues/AT) Faça chuva, tempestade, ventania ou sol de rachar o coco. Todos os dias (exceto às segundas-feiras, pois ninguém é de ferro), bem cedinho, antes de amanhecer, o palco se monta: os feirantes, com suas vozes volumosas e afiadas, encenam o espetáculo diário, cheio de cor e personagens que são trocados dependendo do endereço. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O texto pode também mudar de acordo com a freguesia e o improviso é permitido para esses repentistas de rua. “Olha o abacaxi docinho, freguesa! Pode provar que eu garanto!” “Mulher bonita não paga, mas também não leva”... Em ano de eleição, as feiras ganham mais atores em busca de chamar a atenção da audiência. Não para comercializar morangos ou bananas, e sim, para ‘vender’ ideias – aqueles que as têm, já que parece ter sido normalizado candidatos sem propostas, só espetáculo. Em meio à escolha do tomate ou na parada estratégica para um irrecusável pastel, bandeiras enormes com números e legendas tremulam anunciando que a comitiva abre-alas chegou avisando que candidatos ou candidatas estão vindo atrás. Logo tudo vira um palanque improvisado. São apertos de mão e sorrisos largos, alguns sinceros, outros ensaiados. Os feirantes, já acostumados de outras eleições, assistem à mesma peça a cada quatro anos e de camarote. Logo, os atores desta temporada, assim como chegaram, vão embora, mas não sem antes também sucumbirem ao pastel, estrategicamente instalado no fim (ou começo) da feira. Não dá para escapar dele. Ali, entre uma mordida e outra, até quem foi pedir voto esquece um pouco a obrigação e se entrega aos prazeres mundanos e a um bate-papo tranquilo com quem está também se deliciando com esta fritura, invenção de japoneses inspirados pelos ares brasileiros. Uma junção de guioza com rolinho primavera e recheios cremosos dos nossos pastelões assados. Uma realeza gastronômica que nivela a todos como seus dedicados súditos. Tudo volta à normalidade e me pego reparando nos carrinhos. Eles estão cada vez mais incrementados, com rodas cromadas e malas térmicas que parecem prontos para uma expedição ao Himalaia. Nada de rangidos ou varetas chacoalhando quando passa por uma rua de paralelepípedo. Parecem ter até suspensão. E as estampas?! Imitam as de grifes de luxo. Só falta um motor elétrico para ajudar em terrenos acidentados. Outros são mais, vamos dizer, rústicos, porém seguem firmes, como um eleitor fiel, que vai na confiança. Puxados com afeto, têm a marca do tempo: uma roda torta aqui, uma alça meio solta ali. São veteranos – às vezes, como seus donos – ou herança, uma relíquia de família. Eu já tive um assim e não queria me desfazer até que ele se desfez sozinho e com compras dentro. Não foi uma cena bonita de se ver. Há os exibidos, que deixam à mostra tudo o que é comprado. Do salsão enorme, que dificilmente será todo utilizado, até as dúzias de laranja que devem virar suco no desjejum. Os discretos têm uma capa que esconde e faz mistério, mantendo em segredo o cardápio da semana. No fim, saio da feira com as minhas sacolas cheias (não tenho mais carrinho) e a cabeça leve. A feira tem esse efeito. Pode ser a caminhada, o perfume das frutas, o ar livre, as piadas sem graça dos feirantes, as cenas dos candidatos, os encontros aleatórios com conhecidos que sempre acontecem em Santos, as memórias das feiras que fiz com minha mãe e com meu pai ... Pode ser uma coisa ou tudo junto, fato é que a vida parece mais simples. O peso das compras é quase um problema, mas está mais para uma lembrança de que ali posso escolher – seja o melhor tomate ou o candidato que parece mais genuíno. No meio de tantas promessas, meu plano mais concreto é estar de volta na próxima semana. Porque se tem uma coisa que nunca decepciona é pastel de feira frito na hora (sou da minoria que prefere de palmito) com caldo de cana e limão espremido.