(Leandro Guedes/TV Tribuna) Julho chega e, com ele, um compromisso silencioso se repete nas manhãs de inverno de Santos. Antes do despertador de muita gente tocar, antes do primeiro café coado, antes mesmo de o dia decidir se será frio ou apenas fresco, o nevoeiro já está lá, ocupando seu lugar de sempre. Quem mora aqui conhece o roteiro de cor. Ainda assim, nunca deixa de ser um pequeno espanto. Acordamos e a cidade desapareceu um pouco. Os prédios mais altos somem primeiro, depois os mais baixos parecem ter sido apagados com borracha macia. O morro desaparece, o horizonte some, o mar se recolhe para algum lugar atrás daquela cortina branca. O mundo encolhe até caber em poucas quadras. E então, quase sempre, como quem revela um truque antigo, o nevoeiro se desfaz. O céu azul anil surge de repente, exageradamente azul, como se quisesse compensar as horas em que esteve escondido. É difícil acreditar que seja o mesmo dia. Nesta semana, porém, a névoa resolveu ficar mais tempo. Voltou à tarde, leve e persistente, cobrindo tudo outra vez como papel de seda esquecido sobre a paisagem. O mar ganhou um ar mais soturno, os contornos ficaram suaves. O nevoeiro de julho, embora tenha lugar cativo no calendário, atrapalha o dia que quer começar. O entra e sai dos navios no porto precisa diminuir o ritmo. As balsas e as catraias, acostumadas ao vai e vem frenético pelo canal do Estuário, às vezes precisam parar. Esperar. E esperar nem sempre combina com a vida. A cidade tem horário, compromisso, entrega, reunião, consulta marcada. O relógio continua andando mesmo quando o horizonte some sob um véu. Mas eu vejo beleza: o nevoeiro obriga a olhar para aquilo que normalmente ignoramos. Para o desenho dos postes surgindo aos poucos, para o barulho do apito dos navios escondidos atrás do branco, para a forma como um lugar tão conhecido pode, de repente, parecer outro. Ele apaga contornos, embaralha distâncias e deixa tudo mais incerto, mais fragmentado. Eu gosto tanto das manhãs enevoadas de inverno. Porque, mesmo causando seus transtornos, elas carregam uma espécie de conforto difícil de explicar. Há algo de tranquilizador em saber que, apesar das estações trocadas, do frio que às vezes não vem e do calor que chega antes da hora e ficam além da conta, há algo que continua voltando todos os anos, exatamente como eu lembro. O nevoeiro chega, toma a cidade, esconde o mar... e depois vai embora. Como se estivesse apenas cumprindo seu expediente no inverno. Além do mais, combina com esse friozinho das primeiras horas do dia, quando sair da cama precisa de força de vontade e tudo o que a gente deseja é uma xícara quente de café e uma média com manteiga. Combina com vidros embaçados, pés com meia e ruas ainda sonolentas. Por isso, todos os anos, eu também faço exatamente a mesma coisa. Pego o celular e procuro registrar o fenômeno. Porque pode até ser o mesmo nevoeiro de todos os julhos. Mas continua impressionante como se fosse a primeira vez.