<p class="p-smartimagebox"><img attr-cid="policy:1.407686" attr-version="policy:1.407686:1760315471" class="p-smartimage" src="/image/policy:1.407686/legacy_image_344227.jpg?f=3x2&w=400&q=0.3" /><br /> <span class="p-smartcaption">(Alexsander Ferraz / AT)</span></p> <p data-end="217" data-start="98">Quando a gente passa por uma perda, é inevitável mergulhar em reflexões sobre a vida. Elas vêm quase sem pedir licença.</p> <p data-end="250" data-start="219">Nesta semana perdemos um amigo.</p> <p data-end="485" data-start="252">Daquelas pessoas que fazem diferença. Que todo mundo gosta de ter por perto. Que deixam qualquer roda de conversa mais leve, divertida. Elton Cobra era assim. Tinha um sorriso fácil, um jeito gentil e uma disposição rara para ajudar.</p> <p data-end="780" data-start="487">Amava Santos. Mesmo trabalhando em São Paulo, nunca abriu mão de voltar para o mar. Gostava de surfar com o filho, correr no calçadão, andar de bicicleta, encontrar os amigos e simplesmente ficar ali, jogando conversa fora até o pôr do sol. Parecia entender bem o valor dessas pequenas pausas.</p> <p data-end="1114" data-start="782">Era um advogado respeitado no que fazia, mas que nunca levou a formalidade da profissão para as relações pessoais. Era bom de papo, daqueles com quem a conversa flui sem esforço. Falava de tudo. Das pequenas bobagens aos assuntos mais espinhosos. Tinha escuta atenta e, muitas vezes, uma observação simples que fazia a gente pensar.</p> <p data-end="1438" data-start="1116">O melhor: Elton adorava pilotar a churrasqueira e fazia isso muito bem. Gostava de inventar novidades, experimentar cortes, testar temperos. Estava sempre ali, em frente à brasa, com sua cervejinha gelada na mão e o rock tocando ao fundo, criando aquele clima bom de encontro que a gente imagina que vai durar para sempre.</p> <p data-end="1724" data-start="1440">Ele partiu cedo demais. Aos 51 anos. Um número que para os brasileiros imediatamente traz à memória “uma boa ideia”. A gente pouco entende dos mistérios do que existe além da vida, cada um encontra na própria fé o caminho possível para o consolo, mas não acho que o slogan se encaixe.</p> <p data-end="1968" data-start="1726">Fé era algo importante para o Elton. Gostava de ir às missas na Paróquia São Jorge São Benedito. Dizia que se sentia bem ali, em paz, como se encontrasse um lugar de silêncio no meio da pressa do mundo. É lá que será celebrada sua missa hoje.</p> <p data-end="2125" data-start="1970">Quando a Lu Julião nos apresentou o Elton como namorado, a reação foi quase imediata entre os amigos. Tomara que dê certo. Ele parece um cara legal. E deu.</p> <p data-end="2365" data-start="2127">No velório, ouvi várias vezes as mesmas frases. A gente dá importância para tanta besteira. Precisamos nos ver mais. Não podemos ficar tanto tempo sem nos encontrar. Eu estava com ele ontem de manhã e agora isso. Eu não estou acreditando.</p> <p data-end="2463" data-start="2367">A vida é veloz. O calendário não dá a mínima para nossos dilemas. Ele simplesmente vai passando.</p> <p data-end="2775" data-start="2465">Perdi minha mãe cedo e levei outro grande susto quando, aos 29 anos, descobri um problema cardíaco congênito e precisei passar por uma cirurgia. Esses acontecimentos mudam a gente. Talvez quem esteja ao lado nem perceba, mas não dá para atravessar experiências assim sem que algo dentro da gente se transforme.</p> <p data-end="2907" data-start="2777">Passei a dar menos peso às coisas. Muito menos. Fui aprendendo a dizer não para o que não queria e sim para aquilo que me faz bem.</p> <p data-end="3120" data-start="2909">Também aprendi a respeitar a vontade do outro. Não é porque eu gosto ou quero alguma coisa que quem está ao meu lado precisa pensar igual. A individualidade é importante, desde que exista respeito pelo coletivo.</p> <p data-end="3385" data-start="3122">Outra coisa que fui aprendendo com o tempo é não assumir responsabilidades que não são minhas. Não me martirizar pelas escolhas dos outros. A vida fica mais fácil com menos bagagem. E quando estamos com as mãos livres, conseguimos ajudar mais quem está por perto.</p> <p data-end="3706" data-start="3387">Nesta semana voltei para essa espiral reflexiva. Penso muito na minha amiga Luciana, que perdeu seu companheiro. Penso no filho que ele deixa, Tales, de 13 anos. Penso também na irmã, Alys, e no pai, Esaú, cuja dor eu nem consigo dimensionar. A despedida aconteceu num dia chuvoso. Um dia de luto para alguém tão solar.</p> <p data-end="4014" data-is-last-node="" data-is-only-node="" data-start="3708">Quando fecho os olhos e lembro do Elton, o que me vem primeiro não é a tristeza. É a imagem dele sorrindo, em frente à churrasqueira, com o rock tocando ao fundo, uma cerveja gelada na mão e o mar ali por perto. E esse sorriso, gentil e sincero, segue despertando um sorriso meu. Ele ainda faz a diferença.</p>