(Divulgação) Eu compro quase tudo pela internet. Tudo mesmo. Roupa, sapato, livro, panela, produto de limpeza, presente. Pesquiso preço, comparo modelos, leio avaliações e, se deixar, passo mais tempo escolhendo do que deveria. Gosto da praticidade. Gosto de não precisar sair de casa. Gosto de comprar de pijama, se for o caso. Até que precisei comprar um sofá-cama. E aí a internet, tão eficiente, esbarrou numa questão fundamental: eu precisava sentar no sofá antes de comprar. Porque não adianta a opinião de 479 pessoas. Foi assim que voltei a uma loja. Uma loja de verdade: com porta para a rua, vendedor e sofá para experimentar. E conheci seo Manolo. Seo Manolo é um vendedor das antigas. Simpático, convincente sem ser invasivo, daqueles que sabem vender sem fazer a gente perceber que está comprando. Conversou, perguntou o que eu procurava, mostrou opções, explicou e me deixou pensar. Pode dar aula de marketing a muito marketeiro influencer. Não precisou de funil de vendas, gatilho mental, storytelling ou qualquer dessas palavras que hoje aparecem em toda apresentação. Seo Manolo simplesmente conhecia o produto e sabia ouvir o cliente. Abriu o sofá, mediu, me incentivou a sentar, reclinar, deitar e ainda me deu uma aula sobre colchões. E, como quase sempre acontece quando há gente envolvida, a venda virou conversa. Vieram histórias dos antigos consórcios Sharp dos anos 1980 que ele vendia, e até um nome conhecido entre os clientes de Manolo: meu colega, o radialista Pablo. Vendedor bom não esquece suas vendas. Foi aí que pensei em como esse tipo de encontro está ficando raro. De uns tempos para cá, dá uma tristeza danada perceber as lojas fechando: uma porta baixada, depois outra, uma vitrine vazia, um “aluga-se” colado no vidro. No começo, a gente nem presta atenção. Depois começa a notar: “Essa sapataria fechou? Ali não era um armarinho?”. É um desaparecimento silencioso. Não é só perder lugares para comprar, mas também as pessoas que estavam ali. O vendedor que conhecia os clientes pelo nome, a mulher do caixa, o dono que abria a porta todas as manhãs. Gente como seo Manolo. E aí veio outra parte da experiência que me fez pensar no quanto a compra presencial tem coisas que a internet não consegue dar: a entrega foi marcada e aconteceu na hora combinada. Parece pouco, mas não é. Quem compra on-line sabe que essa etapa pode virar uma pequena operação de guerra doméstica. Você fica esperando uma janela de horário que parece ter sido definida por algum astrólogo do apocalipse. Não pode sair, não pode tomar banho — afinal, é sempre quando você está com xampu na cabeça que toca o interfone —, não pode trabalhar nem relaxar. No caso do meu sofá-cama, não precisei viver nenhum desses pequenos dramas contemporâneos. Chegaram no horário combinado dois entregadores simpáticos, educados, cuidadosos. Entraram, conversaram, fizeram o trabalho sem aquela pressa nervosa de quem parece estar tentando bater um recorde de entregas. Eu poderia ter comprado meu lindo sofá pela internet. Provavelmente, encontraria um modelo parecido, talvez até mais barato. Teria recebido uma caixa, acompanhado um código de rastreamento e passado alguns dias tentando adivinhar se “saiu para entrega” significava que ele realmente chegaria naquele dia. Mas não teria conhecido seo Manolo. Não teria sentado — e até deitado — no sofá antes de comprá-lo. Não teria rendido boas conversas. E não teria inspirado esta crônica. A internet é uma ajuda e tanto. Continuarei usando e abusando dela. Mas talvez seja bom resgatar, de vez em quando, esses hábitos que são mais do que uma compra. Porque, quando uma loja fecha, não desaparecem apenas os produtos da vitrine. Desaparecem também as conversas, os personagens e um pedacinho da vida cotidiana da cidade. E talvez seja disso que eu tenha sentido falta sem perceber. Até precisar comprar um sofá-cama.