(Thereza Eugênia/ Divulgação) Eu tinha 14 anos quando fui ao primeiro show da minha vida: Ney Matogrosso, no Clube Tumiaru, em São Vicente. Fui com meu pai e minha mãe, porque aos 14 a gente ainda precisava dos pais para sair à noite, embora fizesse esforço para parecer adulta. Eu, por exemplo, concluí que me faltava altura para frequentar a noite e convenci minha mãe a comprar um sapato fechado, de cadarço, muito na moda, com salto anabela, um hit dos anos 1980. Não sei quantos centímetros aquilo me acrescentou, mas psicologicamente cheguei ao clube com 1,80 metro. Para mim, era o pacote completo da vida adulta: salto, Ney Matogrosso e pizza. Era 1984, tempo do show Destino de Aventureiro. E quem já viu Ney no palco sabe que não se trata de um show. É um acontecimento. Ele cantava afinadíssimo, dançava incrivelmente, provocava e, em determinado momento, começava a tirar a roupa. E tirava. Até sobrar praticamente um tapa-sexo para minha perplexidade. Poucos meses depois, Ney esteve na primeira edição do Rock in Rio, em 1985, onde alguns metaleiros resolveram recebê-lo com resistência e até ovadas. Péssima escolha de adversário. Se há alguém capaz de enfrentar uma multidão e continuar senhor da situação, era Ney Matogrosso. Eu não fazia ideia de que aquele artista que acabara de ver tão de perto estava prestes a protagonizar mais um capítulo histórico da música brasileira. Só sabia que tinha saído do Tumiaru encantada. Depois o vi outras duas vezes, já adulta, e confirmei: algumas pessoas sobem ao palco. Ney toma posse dele. A partir dali, virei rata de show. E Santos era uma festa para quem gostava de música e nem precisava ter dinheiro, fato bastante comum na juventude. Heavy Metal, Clube Caiçara, Blitz, Reggae Night e mais os clubes da Ponta da Praia… a cidade fervilhava. Vi praticamente todas as bandas do rock nacional que passaram por aqui, algumas antes da fama como o Titãs e Ira!. Vi Cazuza pela última vez com o Barão, minha banda preferida. Assisti a Shakira e Joe Cocker, quando ele andava por baixo. Logo depois, a série Anos Incríveis (ou The Wonders Years, assistam em algum streaming se nunca viram) fez uma nova geração descobrir aquela voz rasgada cantando With a Little Help from My Friends e Joe voltou ao merecido topo. Era uma época que dava para ir aos shows. Tinha promoção, desconto, fila à tarde para comprar ingresso mais barato, algum esquema que alguém descolava. A gente não tinha dinheiro, mas tinha método. Hoje, vejo o valor de certas entradas e penso que, nas condições atuais, minha formação musical talvez tivesse terminado no rádio da cozinha. Estou lembrando de tudo isso, porque vi uma entrevista com Ney, que está em turnê: 85 Anos de Ousadia. Com uma disposição para ficar horas em pé, que eu já não tenho para procurar o controle remoto quando cai atrás do sofá. Algum segredo existe. Ney descobriu o elixir da juventude e, numa atitude egoísta, não revelou a fórmula. Pode ser alimentação, disciplina, genética. A ciência deveria investigá-lo. Será que o segredo é não deixar envelhecer aquilo que nos move? Quando vejo Ney hoje, vejo também meus pais, o Tumiaru e aquela menina convencida de que um salto anabela era tudo o que a separava da vida adulta. Eles provavelmente achavam que estavam apenas me levando a um show. Mas me deram uma lembrança para a vida inteira. O sapatinho sumiu, os 14 anos passaram depressa demais e muita coisa mudou. Ney segue no palco. E toda vez que ele entra em cena, de algum jeito, aquela menina de saltinho volta.