(Imagem ilustrativa gerada por IA) Todo brasileiro descobre um especialista em futebol dentro de si a cada quatro anos. É um fenômeno curioso. A Copa começa e a gente olha para a seleção com aquela desconfiança típica de quem já sofreu demais. “Esse time não convence”, “não passa das quartas”, “esse técnico não entende o Brasil”. Mas basta a bola rolar e uma vitória suada aqui, outra ali, para que tudo mude. Os grupos de WhatsApp fervem, os bares lotam e qualquer jogo vira motivo para reunir gente em volta de uma mesa, de preferência com cerveja gelada e porções suficientes para alimentar uma pequena torcida organizada. Aí vem a eliminação. E junto com ela nasce uma legião de comentaristas. Todos têm uma tese pronta. Este ano, as frases campeãs são: “Não existe mais time bobo”, “Hoje todo mundo joga na Europa”, “O Brasil não é mais o país do futebol”. Pode até ser, mas é o dos comentaristas. No dia seguinte ao jogo em que Haaland virou o carrasco do nosso sonho do hexa, bastavam cinco minutos de conversa com qualquer pessoa para o assunto desembocar inevitavelmente na seleção. É como se todo brasileiro precisasse fazer uma sessão coletiva de terapia. Fui logo cedo para a academia e, durante a uma hora em que estive ali, boa parte do tempo foi ouvindo teorias, lamentos e críticas sobre a seleção. O treino virou mesa-redonda esportiva sem que ninguém combinasse antes. A verdade é que perder a Copa não dói só pelo futebol. Dói porque acaba também aquele raro período em que a rotina do país muda completamente. Em dia de jogo do Brasil ninguém precisa inventar desculpa para sair mais cedo. O expediente encurta, as ruas esvaziam, os bares lotam e qualquer mesa vira arquibancada. É um feriado não oficial que todo mundo respeita. Quando a seleção é eliminada, acabam essas pequenas celebrações coletivas que fazem a Copa ser muito maior do que noventa minutos de bola rolando. Entre as análises mais repetidas está a de que o Brasil deixou de jogar como Brasil. Que o técnico italiano, somado ao fato de a maioria dos jogadores atuar na Europa, acabou domesticando nossa velha malemolência. Perdemos o improviso, a irreverência, aquele futebol que parecia mais uma pelada de praia do que uma estratégia desenhada em prancheta. Enquanto isso, a Argentina continua sendo argentina: catimbeira, brigadora e capaz de transformar qualquer jogo em uma novela. A França, por sua vez, parece ter herdado um pouco da nossa ginga. Talvez sejam os muitos talentos de origem africana que ajudaram a construir essa mistura de força, técnica e criatividade. Por isso, nunca comprei muito a teoria de que jogar na Europa explica tudo. Mas essa é apenas a opinião de quem gosta de futebol, não entende nada de tática e sabe perfeitamente o seu lugar na arquibancada. Sempre achei que faltou ao Brasil um pouco daquela raça quase teimosa das outras seleções sul-americanas. Durante muito tempo, nosso talento sobrava e compensava qualquer deficiência. Não acompanhei Pelé, Garrincha e companhia para opinar com propriedade. Mas lembro muito bem de 1994 e 2002. E esta Copa, convenhamos, vai perdendo a graça a cada rodada. O brasileiro virou o Mick Jagger dos mundiais. Basta a gente simpatizar com uma seleção para ela fazer as malas. Cabo Verde, Senegal, Costa do Marfim, Paraguai, Egito, Marrocos... a lista de vítimas do nosso pé-frio só aumenta. Estou começando a achar que, pelo bem maior, talvez seja melhor eu não declarar torcida por mais ninguém.