(Alexsander Ferraz/AT) Logo no começo do ano, uma festa verde pousou bem em frente à minha varanda. No enorme chapéu de sol, do outro lado da calçada, um bando de periquitos decidiu que ali seria o palco da sua dança. Não são poucos, nunca são. Cinco, seis, às vezes mais. A energia que trazem é tanta que parece que vieram anunciar algo: “2025 será agitado, transformador!”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os periquitos não conhecem sossego. Movem-se em sincronia, de poste em poste, fio em fio, como se coreografassem uma brincadeira. São como crianças, inquietas, explorando o céu baixo para nos dar o privilégio de assistir. Minha sobrinha, com a curiosidade aguçada dos seus cinco anos, perguntou: — O que será que eles conversam? Ah, o canto deles! Sim, é barulhento, intenso. É o anúncio da sua chegada. Basta ouvi-los da sala para corrermos até a janela para ver o espetáculo. É quase um ritual: eles vêm, fazem festa, e nós, espectadores, deixamos os afazeres de lado para apreciar o show. Mas há algo de especial nesse palco. O chapéu de sol, com sua copa imensa e frondosa, não é apenas um pouso. É um abrigo, um símbolo da rua e da cidade de Santos. Lembro-me da infância, das cucas caídas no chão. Quem nunca chutou uma, sem querer ou de propósito? Quem nunca brincou com elas, transformando-as em bola ou troféu de algum jogo improvisado? Pensar que alguém cogitou arrancar essa árvore tão sólida dói. Ela faz a rua mais bonita, mais viva, mais verde. Sem ela, os periquitos perderiam seu palco, e nós perderíamos o privilégio de assistir à vida se camuflar no meio das folhas. Mais do que um crime ambiental, seria um crime contra nós mesmos, um atentado a essa conexão que insiste em resistir em meio ao concreto. Enquanto olho os periquitos, verdes como as folhas que os escondem, sinto que aquele chapéu de sol não é só uma árvore. É um refúgio. É história. É memória. É casa. Para eles e para nós. Que continue ali, firme, sustentando o espetáculo da natureza, nos lembrando que o verde — seja da folha ou da asa — é parte essencial de quem somos.