(FreePik) Dizem que os aquarianos carregam certo desprendimento, uma tendência natural a gostar da própria companhia. Não sei se a responsabilidade é dos astros ou simplesmente da idade, mas a verdade é que me dou muito bem comigo mesma. E isso não significa, antes que alguém conclua precipitadamente, que eu não goste de companhia. Adoro. Amo uma mesa cheia, uma conversa que atravessa a tarde, viagens compartilhadas, risadas entre amigos e os pequenos rituais que só fazem sentido quando vividos a dois ou em grupo. A questão é outra: também gosto de estar comigo. E uma coisa não exclui a outra. Só que, aparentemente, a sociedade ainda não se conformou muito com essa possibilidade. Porque não estou falando de ir sozinha ao supermercado ou à farmácia. Falo de programas que parecem terem sido registrados em cartório como exclusividade para casais, famílias ou grupos de WhatsApp: almoçar em restaurante, sentar em um bar, viajar ou simplesmente pedir uma mesa para um. Mesa para um. Três palavras capazes de despertar olhares curiosos de garçons, clientes e, às vezes, do grupo da mesa ao lado que, em silêncio, já criou um enredo inteiro envolvendo uma desilusão amorosa para explicar sua presença desacompanhada. Há quem olhe com pena. Há quem olhe com estranheza. E há os mais ousados, que confundem solitude com disponibilidade. Porque uma coisa é estar sozinha. Outra, completamente diferente, é estar à procura de companhia. Pior ainda é quando alguém decide resolver esse suposto problema sem ser chamado. Outro dia, em uma conversa sobre viagens, uma moça que eu acabara de conhecer me contou que realizou um sonho de infância: conhecer Paris sozinha. Passava horas no Louvre, caminhando sem pressa entre quadros e esculturas, com a tranquilidade de quem não precisava negociar horários, ouvir um “já viu tudo?” ou fingir entusiasmo por outro programa. Ela me confidenciou ter uma espécie de defeito — ou qualidade, dependendo do humor do dia. Está sempre em alerta, preocupada com o bem-estar de quem está por perto. Se o outro está cansado, ela se apressa. Se está com fome, muda os planos. Se quer ir embora, vai junto. Em Paris, descobriu o luxo absoluto de não precisar agradar ninguém. Até que, sentada em um daqueles cafés de calçada onde os franceses transformaram a arte de observar a vida em patrimônio nacional, um homem aproximou-se e, sem cerimônia, sentou-se à sua mesa. Educadamente, ela pediu que ele se retirasse. E ouviu, perplexa: — Pensei que você estivesse sozinha. A frase é tão maravilhosa em seu absurdo que merecia estar emoldurada no Louvre. Sim, meu senhor. Ela estava sozinha. Exatamente sozinha. E estava muito feliz assim. Talvez seja difícil compreender que alguém possa desfrutar da própria companhia sem necessariamente sofrer de abandono, solidão ou carência. Como se uma mulher sozinha fosse um quebra-cabeça incompleto aguardando que alguém aparecesse com a peça final. Confesso que também já vivi pequenos constrangimentos. A pergunta inevitável: — Está esperando alguém? Não. — Ah... Esse ah... costuma carregar mais espanto do que se eu tivesse respondido que estava aguardando o Papa para o almoço. Mas existe uma liberdade deliciosa em não depender de agendas, de humores ou de consensos. Poder pedir sobremesa sem consultar ninguém, ficar uma hora lendo em um café, mudar de ideia sem votação ou passar quarenta minutos olhando para o mar sem que alguém pergunte se aconteceu alguma coisa. Não aconteceu nada. Ou melhor, aconteceu, sim. Aprendemos a conviver com a única pessoa que estará conosco do primeiro ao último capítulo da vida. Porque gostar da própria companhia não significa rejeitar as outras. Apenas que a felicidade não entra em recesso quando os amigos não podem, quando o parceiro tem outros compromissos ou quando a agenda coletiva não coincide com a nossa. E, se me dão licença, vou ali. Tenho um almoço marcado. Com uma pessoa de quem gosto muito.