(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) Tem coisas que só acontecem em ano de Copa do Mundo. O padeiro comenta escalação. O vizinho, que nunca deu bom-dia, resolve discutir quem deveria jogar no meio-campo. Gente que mal acompanha futebol começa a decorar tabela de grupos e fazer contas improváveis sobre confrontos nas oitavas. Pelo menos era assim. Porque, desta vez, confesso: estou achando o clima atrasado. Como se a vibração típica de Copa ainda estivesse presa na garganta. O anúncio da convocação, cheio de suspense e especulações, colocou muita gente na frente da TV. Ainda existe aquele ritual coletivo de esperar nomes, reclamar de um ou outro corte, achar injustiça aqui, esperança ali. Mas falta aquele arrepio antecipado. Aquela sensação de que o País inteiro está prestes a entrar num mesmo assunto. Talvez seja muito tempo esperando o hexa. Talvez a gente tenha desaprendido um pouco essa habilidade brasileira de se jogar à alegria. E olha que eu sou otimista. Irritantemente otimista, às vezes. O problema do otimista é justamente esse: ele também vive decepcionado. Cria expectativa com facilidade. Compra a ideia da redenção esportiva. Acredita no “agora vai”. E depois fica ali, juntando os cacos emocionais enquanto promete nunca mais se envolver daquele jeito. Até a próxima Copa. Também tem um detalhe importante: Copa sem a Itália dá um desânimo. Eu sei, já é a terceira seguida sem eles. Era para termos nos acostumado. Mas eu não acostumei. Copa precisa daquele drama italiano, daquela camisa azul linda aparecendo em algum momento, daquela tradição que faz parecer que o futebol está completo. Sem isso, fica um vazio estranho, como festa junina sem curau. Mas aí vem junho. E junho, sinceramente, salva qualquer humor. A melhor notícia desta Copa é ela voltar a coincidir com as festas juninas. Não existe combinação mais brasileira do que futebol e quermesse. O friozinho chegando de mansinho, bandeirinhas balançando, cheiro de milho cozido, canjica, caldo verde, vinho quente, quentão. A lista de delícias é praticamente infinita. Eu adoro quermesse. Amo aquela alegria simples, meio improvisada, de mesa de plástico, criança correndo, pescaria mal montada e música alta. Junho tem gosto, cheiro e memória afetiva. E quando entra Copa no meio disso tudo, dá liga. As bandeirinhas ganham verde e amarelo. Os bolos aparecem decorados com glacês cheios de corante. Sempre tem alguém tentando transformar cachorro-quente em ‘lanche hexacampeão’. O Brasil inteiro vira uma mistura maravilhosa de torcida e arraial. O único drama real dessa época é quando a quadrilha da escola cai justamente no horário de um jogo importante. Conheço pais que já estão analisando calendário com a seriedade de técnicos de seleção. Porque ninguém quer perder o jogo, mas também ninguém quer perder o filho vestido de caipira dançando “Olha a chuva. Já passou...”. Posso dizer uma coisa? Vá para a festinha. Copa acontece a cada quatro anos. Mas as crianças crescem num susto. Quando você percebe, já viraram adolescentes achando tudo ‘brega’, revirando os olhos para qualquer roupa xadrez. Então, aproveite enquanto ainda querem dançar quadrilha, enquanto ainda acenam do palco procurando você na plateia. O jogo depois dá para ver no streaming, no replay, nos melhores momentos. A memória da criança feliz, essa não tem reprise e ganha qualquer disputa.