De repente, parece que a inteligência artificial tomou conta de tudo. Está no Instagram, no TikTok, nos anúncios, nos banners, nos folhetos, na TV. E tem uma coisa que me incomoda: está tudo ficando com a mesma cara. Antes, a gente reconhecia um comércio por uma foto, uma fonte, uma cor, um jeito de fazer a propaganda. Havia identidade. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Agora, parece que todo mundo passou pelo mesmo liquidificador da IA. Você olha para uma propaganda e, na maioria das vezes, nem precisa ler o nome para saber que aquilo foi feito por inteligência artificial. Tem aquela luz perfeita demais, a comida que nem parece de verdade, o ambiente irretocável. E, justamente por isso, nada parece real, autêntico. E se tem uma coisa que eu não consigo entender é restaurante usando foto de comida feita por inteligência artificial para vender comida de verdade. Gente, não faça isso! Eu quero saber como é o prato que vocês realmente servem. Quero ver o que chega à mesa, do bife à sobremesa. Outro dia vi uma propaganda nas redes sociais com um prato de camarão feito por IA. O bichinho era tão estranho que parecia não ser deste planeta. Soava mais como um alienígena tentando se passar por camarão. E, pior: não dava vontade nenhuma de comer. Para que inventar um prato que não existe se justamente a graça de um restaurante é mostrar o que sai daquela cozinha? Uma foto ou um vídeo real podem não ter a iluminação perfeita, pode ter uma folha de salsinha fora do lugar, um molho escorrendo demais, mas pelo menos conta a verdade. Também tem a questão dos rostos. Tudo bem usar um filtro para não aparecer com aquela cara de quem acabou de acordar. Mas tem gente que passa a foto pela IA e fica completamente diferente. Melhora tanto que a gente precisa de legenda para saber quem é. Os Jetsons, aliás, já tinham previsto isso. Lembram desse desenho animado. Eu amava. Tinha a mãe da família, a Jane Jetson, que sempre falava por vídeo com as amigas (eles foram visionários) e para não aparecer com olheiras, usava uma máscara. Isso lá nos anos 1960, 1970. A gente ‘evoluiu’: trocou a máscara pelo filtro. Eles também tinham aquela máquina que apertava um botão e fazia a comida, além da robô que cuidava da casa. A primeira ainda não chegou para nós de forma acessível e a segunda virou, no máximo, o robô-aspirador. Que é ótimo, desde que seja um bom. Os baratinhos passam mais tempo batendo nos móveis do que limpando. A maioria das tecnologias realmente melhorou a nossa vida. A air fryer é uma delas. Meu vício é descobrir mais formas de usá-la. No começo era uma fortuna, hoje há modelos mais em conta que funcionam muito bem e estão em um monte de casas. Adoro tecnologia e todas as facilidades que ela traz. Só acho que, no meio de tanta inteligência artificial, precisamos preservar um pouco da inteligência natural: o bom senso. Nem tudo, ou quase nada, precisa ser perfeito, brilhante, simétrico. Às vezes, justamente aquela foto meio torta, aquela placa feita à mão, aquele prato que não parece ter sido montado com régua é o que faz a gente lembrar de um lugar, de alguém, de um tempo. Restaurante tem história, cozinheiro, cozinha, prato, personalidade. Não precisa inventar uma comida que não existe para parecer melhor. Rostos reais contam histórias. Se todo mundo usar a mesma inteligência artificial, corremos o risco de ficar todos iguais. E isso, convenhamos, seria muito sem graça. *Fernanda Lopes. Jornalista e gastróloga