[[legacy_image_275103]] A falta de inspiração já serviu de inspiração para muitos escritores. Ficar sem assunto vira assunto. O tal bloqueio criativo não assola só quem tem no ofício a palavra. O artista, o cozinheiro, o fotógrafo, o decorador, o arquiteto, o vendedor... Todo mundo tem seu dia ruim, quando nada parece fluir. Mas compromissos e prazos não querem saber se você levantou da cama se sentindo vazio. Não quer saber se você só encontra lugares-comum, trivialidades, chavões... É bom sacudir a poeira e se virar porque hoje tem até inteligência artificial que faz textos, vídeos, músicas, receitas e projetos por você. Pode não ser um digno de prêmio, mas vai preencher o espaço. Se há dias ruins, há também aqueles em que a gente se sente imbatível. Geralmente, não há um bom motivo para isso. É só mesmo uma sensação, cuja causa é um daqueles mistérios cotidianos. Quando tudo flui fácil. Ideias praticamente transbordam da mente. Tarefas são cumpridas e a gente nem percebe. Tudo dá certo. Até a omelete do café da manhã fica mais gostosa. Problema mesmo é quando o mundo parece conspirar contra você. Quem nunca teve um dia como o começo daquelas comédias da Sessão da Tarde, estilo Férias Frustradas. Um pastelão na vida real. Eu tive uma manhã dessas essa semana. Deve ter sido isso que mudou o eixo do meu universo particular e me deixou com um vácuo criativo. Para começar, o alarme não tocou, apesar de eu jurar que o programei direitinho. O que, claro, não era verdade, afinal a máquina dificilmente é o problema, e sim, a pecinha na frente dela. Marquei o dia errado e acabei acordando 15 minutos antes do horário de um exame que eu havia marcado há mais de um mês. Estava de jejum, conforme mandava as regras de preparo para fazer o ditocujo. Doze horas sem comer. Mas ainda era preciso beber água, muita água. E eu só tinha 15 minutos para levantar, me trocar, chegar na clínica e me hidratar para semana toda. Cheguei, claro, atrasada uns 10 minutos, mesmo estando com ainda alguma remela na cara amassada do travesseiro, um tanto descabelada e mais ainda ofegante. Pega a senha e senta para esperar. Afinal, a gente não pode atrasar, mas eles podem. Foi rápido para essa primeira etapa: fazer a ficha. Mas era um dia ruim, então claro, na correira, eu esqueci a carteirinha do plano, que ficou na outra bolsa. Eu sempre sou planejadora e deixo tudo separado. Mas dessa vez pensei: “Coloco o alarme mais cedo e faço tudo com calma”. Depois de muita lábia, a atendente resolve ligar para o plano e confirmar meus dados. Enquanto isso, a antessala foi esvaziando e a sala do exame enchendo. Fui ficando para trás. Resultado: fui atendida mais de uma hora depois do meu horário, morrendo de vontade de fazer xixi (o que eu não podia) e sem comer há quase 15 horas – entrei na moda do jejum intermitente sem querer. Sentadinha, esperando, peguei meu celular. Surpresa! Estava sem bateria. O pior: precisaria dele para mandar uma mensagem dizendo que iria me atrasar para meu próximo compromisso e também para pegar um carro e conseguir chegar nele. Fucei a bolsa na esperança do carregador estar ali. Mas era um dia ruim... Fui, então, com cara de cachorro que caiu da mudança, pedir um emprestado para a mesma moça que teve que ouvir musiquinha ao telefone para pegar meus dados no atendimento do plano. Todo lugar movimentado deveria ter aqueles totens com carregadores de vários modelos. Aquilo sim é pensar no cliente. Uma alma caridosa, que também aguardava sua vez, ouviu e me emprestou um abençoado power bank, mais conhecido como carregador portátil. Logo ele foi chamado, mas deu tempo de eu dar uma carga para me desculpar pelo atraso. Exame feito, hora de rezar para conseguir chamar o carro. Afinal, lá fora caía uma chuva torrencial. Correndo sem guarda-chuva, consegui pular a poça gigante do meio-fio e entrei no carro, já com o sapato encharcado. Assim que sentei, o motorista fala: “Moça, por favor, não esquece nada no banco”. Já melhorou meu dia pelo “moça”. Daí ele complementa: “Peguei uma passageira hoje que disse que esqueceu a bolsa com tudo dentro (celular, carteira, documentos e até a marmita do almoço). Mas não achei nada no carro. Já fiz viagens depois dela”. Olhei para ele e falei: “E eu achei que estava tendo um dia ruim!”