(Adobe Stock) A gente não percebe a chegada da idade. Ela é sorrateira, uma daquelas visitas que não avisa, entra de fininho, pede um café e, de repente, já está morando com você. Ninguém acorda um dia com um letreiro piscando “Parabéns, você está oficialmente envelhecendo!”. Acontece devagar, em capítulos pequenos, meio desconectados. Primeiro, um dia você sente uma dorzinha no ombro. “Ah, foi a posição errada no sofá, normal.” No outro dia, a dor aparece na lombar. “É o colchão, preciso trocar.” Aí passa mais um tempinho e, quando menos espera, está lá você no banco de trás do carro tentando alcançar a sacola que caiu no chão e... crac, um estalo! Eu podia jurar que foi o carro que fez o barulho, mas não, era eu mesma. “Será que foi uma vértebra? Uma costela? Ou minha dignidade que se partiu ali?”. De repente, cada movimento é uma possibilidade de descobrir uma nova parte do corpo que até então eu nem sabia que existia. Outro dia fui brincar com as crianças no chão da sala. “Ah, moleza, vamos fazer aquele castelo de Lego!” Elas deitam, rolam, fazem estrela. Eu penso: “Será que dá para sentar de um jeito que não doa?”. As meninas pulam, correm, levantam de um jeito que parece desafiar as leis da gravidade. Já eu, quando chega a hora de me erguer, pareço um robô com bateria fraca. Um gemido involuntário escapa e tento não fazer careta, mas já tô vendo tudo em slow motion, igual cena de filme de ação, mas no caso, a única coisa em perigo é minha dignidade. De repente, você vira especialista em alongamentos. Aí começa a paranoia. “Vou dar um jeito nisso, pesquisar exercícios.” A partir daí, meu feed virou uma enxurrada de vídeos de alongamentos, fisioterapeutas explicando a importância da postura, e gente fazendo aquelas poses de ioga que mais parecem contorcionistas. Todo mundo prometendo um milagre e eu aqui, deitada no sofá, só pensando no estalo. Agora, ao abrir qualquer rede social, só vejo gente de lycra alongando e sorrindo como se o mundo fosse a terra da mulher elástica, do estica e puxa. Aí, claro, alguém me sugere: pilates. “Vai mudar sua vida!” Não sou sedentária, tenho que esclarecer. Mas fazia tempo que não fazia pilates e tinha me esquecido que, na prática, é o Cirque du Soleil dos meros mortais. Na minha primeira aula, a professora parecia uma contorcionista olímpica, demonstrando aqueles movimentos elegantes, potentes e suaves. Faz parecer tão fácil. Que inocência. Lá estava eu, tentando me equilibrar em uma perna, naqueles aparelhos que parecem mais da Idade Média, ao mesmo tempo em que encolhia a barriga, respirava fundo e tentava não parecer apavorada. No espelho os alunos pareciam plenos. Eu, por outro lado, estava como um flamingo bêbado. Mas estou evoluindo (acho). No começo, era um estalo para cada movimento, uma careta pra cada alongamento. Hoje, já me estico sem parecer estar sendo torturada. A verdade é que está tudo bem. O jeito é aprender a conviver e se adequar a essas pequenas surpresas da idade. Cada estalo, cada dorzinha é quase como um lembrete sutil: “Olha, você tá viva! E com muita história para contar.” Então, estalos, estou preparada para vocês! Pelo menos, o senso de humor a gente ainda tem, e isso, espero eu, não envelhece nunca, só fica um pouco mais ranzinza. No fim, essas pequenas conquistas são meu Cirque du Soleil particular.