[[legacy_image_260403]] Demorei um bom tempo para acalmar o corpo, amansar a batida no peito e desfazer o nó na garganta do susto que levei quando flagrei minha irmã mais nova, então com 5 anos, com metade do corpo pendurado para fora da janela do apartamento, que ficava no 3º andar. Ela estava tão distraída vendo as crianças brincando no térreo que nem me ouviu chegar. Ainda bem, porque a impressão é de que bastaria um suspiro para tornar aquele milésimo de segundo em uma dor permanente. Consegui chegar devagarinho e tirá-la dali. Acho que foi a única vez que estourei com ela, dando uma bronca mais inflamada do que deveria. Agora adulta, ela diz que não lembra, mas eu não esqueço nem um só detalhe da cena assustadora. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Há momentos em que uma fração pequena de tempo pode ser decisiva e transcender. E não falo só de traumas. Há pontos de inflexão nas nossas vidas que mudam tudo. Não à toa, há tantos livros e filmes com aquele plot, enredo que dá dois caminhos distintos dependendo de uma determinada decisão. Li, recentemente, o romance Faça Um Pedido, da autora nacional Olivia Uviplais, que aborda a mudança de rumo por uma escolha. Tem outra história que me prendeu completamente que é Os Dois Morrem no Final, de Adam Silveira com tradução de Vitor Martins. Sabe quando um livro te impacta...este foi assim. Uma lição de que cada segundo importa e um lembrete do que significa estar vivo. No enredo, os personagens recebem uma ligação da Central da Morte. A notícia é devastadora: eles vão morrer naquele mesmo dia. Os dois não se conhecem, mas, por motivos diferentes, estão à procura de um amigo com quem compartilhar os últimos momentos, uma conexão que ajude a diminuir a angústia e a solidão que sentem. Por sorte, há um aplicativo para isso, e é graças a ele que Rufus e Mateo vão se encontrar para uma última aventura: viver uma vida inteira em um único dia. Uma das minhas autoras preferidas no momento, Taylor Reid Jenkins, também tem um narrativa que explora a temática: Em Outra Vida Talvez, a jovem Hannah anda sem motivação e sofrendo uma série de decepções. Decide, então, voltar à cidade natal, de onde está distanciada há alguns anos e se reaproximar dos amigos. Num bar, reencontra um namorado de adolescência cujo término foi causado pelo distanciamento geográfico. A história, a partir deste momento corriqueiro, passa a ter dois caminhos. Em um, ela aceita o convite de ficar com ele mais um pouco e no outro vai embora com a amiga. Até o fim, vamos sendo conduzidos por essas duas estradas e, surpreendentemente, eu não conseguia saber qual delas eu queria que fosse a escolhida. Mesmo com tropeços, quedas, barreiras e desvios, cada rumo tomado tinha suas virtudes e suas ciladas. Havia também semelhanças entre eles, mas enormes diferenças. Há um filme na Netflix bem parecido, aliás. Chama-se Como Seria Se... Não é baseado na obra, mas tem a mesma temática. O livro possui mais camadas, porém o longa é uma boa distração. Faz pensar sobre destino e, principalmente, sobre ação e reação. Não é preciso um momento dramático para mudar a caminhada. Na maior parte do tempo, são as circunstâncias corriqueiras que nos movem ou paralisam. É como a frase de John Lennon: “A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro”.