[[legacy_image_357530]] A gente pode ambicionar ser bem sucedido, subir na carreira, comprar um carro, uma casa, mas o que faz as pernas tremerem e o coração palpitar mais forte é mesmo a paixão. E do que vale uma vida se não for para termos pelo menos um grande amor? Revisitando álbuns de família, encontrei as lindas fotos em preto e branco do casamento dos meus pais. Eles estavam radiantes. Olhinhos brilhando, sempre se tocando, sorrisos abertos, como se descritos em um livro. Pareciam não conseguir ficar longe um do outro. Tiveram uma grande história de amor. Começaram a namorar adolescentes. Minha mãe só teve um namorado, e alguns flertes inofensivos, como falava. Vizinhos na Vila Valença, em São Vicente, não viam a hora de dar o passo para o matrimônio e fugir da vigilância de águia do meu avô. Teve festança no quintal da minha avó, com direito a muito champanhe (que devia ser sidra) e bolo confeitado pela bisa, além de um senhor banquete com quitutes que foram preparados durante toda a semana. Naquele tempo, tinha que ter a foto oficial do casal junto aos presentes, que ficavam em cima da cama. Nos aniversários também, vocês lembram? Essa é uma tradição que morreu, mas não devia. Voltei no tempo ao identificar um prato de bolo que uso até hoje, um jogo de taças, das quais algumas sobreviveram a quatro crianças e ainda hoje brindam momentos felizes. Até um lustre estava sobre a cama e me lembrei do dia em que ele se espatifou no meio da sala depois de levar uma bolada. Era uma casa sem tédio. Os tempos eram outros e casar também significava poder se entregar. Por isso também a pressa. E dessa entrega vieram quatro filhas e uma relação que elevou nossos parâmetros para a tão falada alma gêmea. Eles pareciam felizes até nas raras divergências. Quando minha mãe ficou doente, meu pai estava lá todas as noites dormindo no hospital. Não tinha nem negociação para revezarmos. E foram muitos dias de internação. Mais de uma centena deles. O amor é isso, incondicional. Antes, quando ele sofreu um infarto, aos 46 anos, ela cuidou de tudo. Desde a parte burocrática até a mudança da dieta e a companhia para as caminhadas na praia. Mas não era só nos momentos ruins que eles demonstravam que não se arrependiam daqueles dois ‘sim’, diante dos homens e de Deus. Faziam tudo juntos, mesmo seguindo cada um com sua carreira profissional. Acima do amor, havia respeito e admiração mútua. E tinham um pacto, nunca se contradizer na frente da filharada. Gostavam das mesmas coisas: viajar, comer, cozinhar, ler, praia e mais praia, com as filhas e sobrinhos. Adoravam ter a casa cheia de gente. Foram 30 anos assim e acho que seriam 60 se tivessem ficado mais por aqui. Eu faço 30 anos de casada este ano. Também tirei a sorte grande e dei de cara logo com minha cara-metade. Nunca nem procurei, falava a quatro cantos que não iria casar. Mas quando as pernas tremem, vem o frio na barriga e o coração bate forte, tudo o que se planejou perde espaço, importância. E daí a vontade é só dizer sim.