(Unsplash) Há datas com significados especiais. Para mim, o Dia dos Professores é uma delas. Afinal, cresci numa casa onde ensinar não era apenas uma profissão. Era uma paixão das grandes. Minha mãe era professora. Ela respirava o magistério. Tinha quatro filhas, uma casa para cuidar, contas para pagar e uma rotina maluca. Mas era na sala de aula que se realizava. Ensinar era sua grande paixão. E transformar vidas, sua missão. Foi professora da antiga Febem, hoje Fundação Casa, quando existia uma unidade na Praia das Vacas, em São Vicente. O prédio parecia um chapéu de bruxa. Eu conhecia bem aquele lugar. Como nem sempre tinha com quem deixar as filhas, minha mãe nos levava para o trabalho. Sim, eu e minhas irmãs frequentávamos a Febem. Também acompanhávamos minha mãe às escolas de periferia e comunidades. Fizemos amigos e descobrimos, ainda pequenas, que o mundo era muito maior do que o nosso quintal. Naquela época, minha mãe, que já tinha uma casa cheia, ainda levava algumas crianças da Febem para passar fins de semana e feriados conosco. Não éramos ricos. Beeem longe disso. Não tínhamos casa própria, as compras eram contadas e roupa nova era acontecimento. Mas tínhamos algo que aquelas crianças, muitas vezes, não tinham: uma família presente e a segurança de um lar. Minha mãe nunca nos criou numa bolha. Ensinou, sem precisar de lousa, que nem todo mundo começa a vida do mesmo ponto de partida. E que professor faz muito mais do que ensinar a tabuada. Acolhe, orienta, oferece segurança e, principalmente, oportunidades. Por isso, deveria ser muito mais valorizado. Ela faleceu vai fazer 30 anos e a desvalorização só aumentou. Mas o Dia dos Professores também guarda uma história divertida na minha família. É que me casei justamente em 15 de outubro. Nada planejado. Era sábado, todo mundo estava de folga e a data acabou sendo escolhida. No primeiro aniversário de casamento, meus sogros nos convidaram para almoçar. Minha sogra apareceu com um lindo ramalhete de flores. Fiquei encantada. E confusa. Olhei para o Marcus, meu marido, procurando alguma explicação. Ele também não fazia ideia do que estava acontecendo. Na minha ignorância, perguntei e afirmei ao mesmo tempo: – Mas eu não sou professora?!” Até que meus sogros, depois de boas gargalhadas, revelaram: — Hoje faz um ano que vocês se casaram! Pois é. Nós dois tínhamos esquecido. Ainda bem que somos iguais nesse quesito. Se apenas um fosse distraído com datas, provavelmente a história terminaria em mágoa. Daquele dia em diante, a família adotou a tradição: todo 15 de outubro, recebemos um sonoro “Feliz Dia dos Professores!” Virou nossa piada particular e uma lembrança especial da minha sogra, que já não está aqui. Assim, uma mesma data reúne tantos afetos. Minha mãe, que fez da educação uma missão de vida. Minha sogra, que transformou nosso esquecimento numa memória feliz. E um casamento que começou justamente no dia de uma das profissões que mais admiro. A educação pode não resolver todas as desigualdades do mundo, mas oferece oportunidades para mudar histórias. E, muitas vezes, essa oportunidade está diante de uma lousa. Feliz Dia dos Professores! E, para o Marcus, feliz aniversário de casamento. Ou melhor, feliz Dia dos Professores!