A Black Friday está chegando, mas o brasileiro, que não é de perder oportunidade, tratou logo de esticar a data. Por aqui, virou Black November. Um mês inteiro de ofertas e aquela sensação de que estamos deixando passar um negócio imperdível a cada cinco minutos. Mas a gente aprendeu. Ou pelo menos deveria. Afinal, nem tudo o que reluz é desconto. A famosa Black Fraude continua firme e forte, mesmo com o consumidor mais esperto. Eu, particularmente, adoro a Black Friday. Há alguns anos, aproveito a data para antecipar as compras de Natal. E tenho me dado muito bem. O segredo é simples: organização, uma listinha de desejos e pesquisa antecipada de preços. Muita pesquisa. Enquanto nos Estados Unidos a data surgiu para movimentar o comércio depois do Dia de Ação de Graças, por aqui virou a largada das compras natalinas. Minha estratégia é acompanhar os preços do que preciso para mim, para casa e dos presentes que pretendo comprar. No ano passado, comprei uma air fryer. No retrasado, um ar-condicionado para a sala. Neste ano, minha missão é uma televisão para minha sobrinha. Ela nem imagina, mas a tia já está fazendo plantão nas lojas virtuais. Só que é preciso cuidado. O velho golpe da metade do dobro continua por aí. O produto custa R\$ 1 mil, sobe para R\$ 2 mil na véspera e aparece milagrosamente por R\$ 999 na Black Friday. Um desconto espetacular de 50%! Dá até vontade de agradecer à loja pela generosidade. E tem o frete. Você encontra aquela promoção maravilhosa e, na hora de pagar, descobre que a entrega custa quase o preço do produto. Dá vontade de perguntar se a encomenda virá de helicóptero. Com a inteligência artificial, os golpes ficaram ainda mais sofisticados. Sites falsos reproduzem lojas conhecidas com perfeição. Uma amiga comprou uma geladeira acreditando estar no site de uma grande rede. Pagou e nunca recebeu. Era uma cópia da loja verdadeira. O preço estava baixíssimo e o pagamento, claro, só por Pix. Um sinal de alerta enorme. Nem sempre o problema está na loja falsa. Já contei aqui minha experiência com um celular comprado na Amazon em uma Black Friday. Quando abri a caixa, encontrei dois jogos de Pula Pirata. Isso mesmo. Dois! Em vez de tecnologia, ganhei entretenimento infantil. Não achei a menor graça. Não sou a única. Já vi relatos de consumidores que compraram eletrônicos e receberam leite condensado, molho de tomate e até sabão de coco. Parece que transformaram os centros de distribuição em uma espécie de amigo-secreto, no qual ninguém sabe o que vai ganhar. Suspeito que, em alguns casos, alguém substitua os produtos por outros de peso e tamanho semelhantes. Apesar de tudo, continuo fã da Black Friday. Só aprendi que promoção boa não é a que anuncia o maior desconto, mas a que realmente vale a pena. E que comprar o que não precisamos só porque está barato também não é vantagem. Nesse caso, o desconto é de 50%, mas o desperdício é de 100%. Enfim, a Black Friday é ótima, desde que a vontade de economizar não saia mais cara do que a própria compra. Agora, com licença, que preciso continuar procurando a televisão da Gigi. E torcer para que, desta vez, não entreguem uma coleção de Pula Pirata. Já tenho dois. E são mais do que suficientes. *Jornalista e gastróloga fernanda.lopes@grupo-tribuna.com