(FreePik) Outro dia, no meio de uma tarefa do dia a dia para mim, escrever uma matéria, me deparei com uma dúvida que parecia pequena, mas acabou rendendo. O nome do entrevistado levava acento ou não? Na falta de certeza, fiz o que qualquer pessoa faria hoje em dia. Mandei um WhatsApp: “Oi, tudo bem? Uma dúvida: o seu Marcio tem acento?” A resposta veio quase instantânea, dessas que nem dão tempo de você mudar de ideia. “O nome Márcio é acentuado sim, no ‘a’.” Fiquei olhando para a tela por alguns segundos. Nem de longe esperava aquele retorno. Não era exatamente o conteúdo da resposta que incomodava, embora eu conheça bons Marcios por aí que dispensam o acento desde o nascimento. Era o tom. Seco, didático, definitivo. Uma aula de gramática que eu não solicitei, entregue com a segurança de quem não admite contestação. Respirei fundo. Pensei em responder. Pensei em explicar que nome próprio não segue regra, segue cartório, vontade dos pais, às vezes até erro que vira identidade. Já estava elaborando mentalmente minha argumentação (e pensando se valeria a pena fazê-la) quando o celular vibrou de novo. Tinha uma mensagem: “Desculpe, quem respondeu foi a IA. Meu nome não tem acento”. Pronto. Estava explicado. E, curiosamente, não deu alívio. Primeira reação foi rir. Depois, me dei conta de que eu tinha me incomodado com uma inteligência artificial. Não com uma pessoa apressada, não com alguém em um dia ruim, mas sim com um sistema programado para ajudar. Um assistente virtual que precisa de ajustes. Contei para minha cabeleireira, que logo comentou: “A IA que eu uso para estudar é debochada, tenho certeza”. Ela contou que pediu uma informação e recebeu como resposta que já tinha respondido aquilo antes. “Nossa, fiquei indignada, porque eu pago para ela me ajudar”. Fiquei pensando nessas devolutivas que não são exatamente erradas, mas também não são exatamente humanas. Falta ali um desvio, uma delicadeza, um talvez, um depende. Falta aquele espaço onde a conversa respira, onde pode haver espaço para o debate, para a dúvida. As inteligências artificiais foram criadas para nos imitar e nos superar e, em muitos aspectos, conseguem assustadoramente bem. Escrevem, respondem, organizam ideias, fazem contas complicadas, compilam, transcrevem, traduzem e um mundo de outras ferramentas. Mas ainda escorregam no que não se ensina tão fácil. O tom. Porque não basta saber que Márcio pode ter acento. Às vezes, é preciso saber quando não colocar.