(Imagem ilustrativa/ Gerada por IA) Saí do trabalho um pouco mais cedo porque tinha médico. Daqueles médicos que a gente marca com tanta antecedência que, quando o alerta aparece no celular, a reação é quase de espanto: “mas já?”. Entre a correria dos dias e a névoa da menopausa, às vezes esqueço compromissos, palavras e, em alguns momentos mais dramáticos, suspeito até do meu próprio nome. Era um daqueles dias de chuva fria e persistente, que não caem apenas do céu — parecem brotar do chão, escorrer pelas paredes e atravessar os ossos. Mas eu estava preparada. Muito preparada, aliás. Vestia minha mais recente conquista: uma parka linda, quentinha e impermeável, garimpada num brechó e comprada pelo preço que transforma qualquer peça de roupa em troféu pessoal. Havia também um guarda-chuva respeitável e a confiança de quem acredita ter vencido a meteorologia. Peguei o VLT quase na esquina do trabalho e nem me molhei. Um sucesso. Tão acostumada estou a descer na estação perto de casa que esqueci um detalhe importante: naquele dia, a médica ficava uma estação depois. Sem problemas. Três quadras de caminhada não matam ninguém, pensei eu, ainda otimista e seca. A chuva, porém, resolveu evoluir de garoa educada para tempestade temperamental. Pingos grossos vinham acompanhados de um vento criativo, que descobria novos ângulos para me atingir. Felizmente, minha parka tinha capuz. Levantei a proteção sobre a cabeça e segui firme, admirando silenciosamente minha própria inteligência na escolha do casaco. Foi então que aconteceu. Faltava apenas atravessar a rua para chegar ao consultório quando um carro surgiu em velocidade compatível com uma prova de automobilismo em pista molhada e me ofereceu, gratuitamente, um banho completo de água de poça. O motorista seguiu por poucos metros antes de parar num sinal vermelho. Minha calça ficou completamente encharcada. A parte de cima, graças à gloriosa parka de brechó, permaneceu intacta. O motorista, por sua vez, recebeu de mim uma coleção de elogios que não sobreviveriam à revisão editorial de qualquer jornal. Respirei fundo, me recompus e fui para a consulta, porque a vida adulta é isso: ser atropelada simbolicamente pela existência e, ainda assim, comparecer ao horário marcado. Na saída, passei na farmácia ao lado para comprar os remédios receitados. Escolhi, paguei e descobri que o universo ainda não havia encerrado as pegadinhas do dia. O Pix não funcionava. O cartão no celular resolveu entrar em greve. Segundo o caixa, ali dentro o sinal desaparece misteriosamente e os celulares costumavam enlouquecer mesmo. Uma espécie de Triângulo das Bermudas digital farmacêutico. Depois de algumas tentativas e uma pequena peregrinação até a porta da loja em busca de sinal, consegui finalmente concluir a compra. Lá fora, a chuva apertava ainda mais. Minha calça continuava molhada. Minha parka continuava passando com louvor no teste de fogo — ou melhor, de água. Coloquei novamente o capuz e fui buscar o guarda-chuva que havia deixado no suporte da entrada. Não estava lá. Alguém, em algum momento da minha epopeia tecnológica junto ao caixa, decidiu que precisava mais do meu guarda-chuva do que eu. E foi assim que descobri que aquele realmente não era o meu dia. Restou caminhar duas quadras debaixo da chuva, protegida apenas pela minha heroica parka impermeável e pela perspectiva cada vez mais sedutora de chegar em casa, tomar um banho escaldante e comer alguma coisa quente o suficiente para restaurar minha fé na humanidade. Foi exatamente o que fiz. No fim das contas, talvez o dia não tenha sido tão ruim. A consulta aconteceu. Os remédios vieram para casa. A parka se revelou um excelente investimento. E alguém, em algum lugar da cidade, talvez esteja descobrindo neste exato momento que roubou justamente o guarda-chuva baratinho que não resistiria ao próximo temporal.