Eu tenho uma teoria: as ‘febres’ da internet surgem pelo mesmo mecanismo misterioso que faz as canetas ou as chaves desaparecerem dentro de casa. Ninguém sabe como começam ou para onde vão. E, quando a gente finalmente descobre que elas existem, já estão sendo substituídas por outra. É preciso estar muito atento. Você pisca e perde uma trend. Outro dia era o morango do amor. De repente, o mundo inteiro parecia ter descoberto que morango existe. Vieram as versões, as releituras, as invenções. Até que apareceu o morango cravejado. Para quem ainda não sabe, porque talvez você tenha perdido a tendência da vez enquanto via a anterior, é um morango coberto de brigadeiro branco e chocolate branco com pedacinhos daquela calda que já foi o chamariz do morango do amor. Ou seja: uma trend virou outra trend. A fila anda rápido. Agora no TikTok é a mexerica temperada. Você pega a mexerica, coloca no prato, joga limão, pimenta, azeite, sal, salsinha e pronto. Nasce uma celebridade. Eu ainda prefiro a mexerica como ela veio ao mundo: descascada e comida no gomo. Mas respeito. Criatividade na cozinha não deve ser censurada. Vai que amanhã alguém tempera uma maçã com mostarda e vira patrimônio gastronômico da rede social. Na beleza, também é preciso acompanhar a velocidade. Outro dia, meu Instagram só me mostrava uns batõezinhos brilhantes que parecem um chaveiro e ficam pendurados na bolsa. Eu nem tinha entendido direito o que era e provavelmente já existe alguma coisa nova ocupando o lugar deles. Sem falar nas máscaras coreanas. Aliás, tudo coreano. K-pop, doramas, cinema, maquiagem, skincare, comida. Os coreanos conseguiram entrar em todas as bolhas. E não foi exatamente por acaso. A Coreia do Sul investiu durante décadas na cultura como indústria, apostando em música, audiovisual e conteúdo para exportação. E funcionou. A cultura coreana atravessou o mundo e chegou até a nossa tela, nossa playlist, nossa nécessaire e, em breve, provavelmente, nossa geladeira. Estamos vivendo uma época em que não basta gostar das coisas. É preciso acompanhar o que está acontecendo. Porque, se você demorar, perdeu. E isso vale até para o passado. Na semana passada, a mania era transformar as próprias fotos em imagens dos anos 1980. Todo mundo com cara de protagonista de filme, cabelo impecável, roupa maravilhosa, luz cinematográfica. Eu vivi os anos 1980. E posso garantir que não era daquele jeito. Aquilo é o anos 1980 das Panteras. O nosso era mais Chitãozinho e Xororó. Tinha cabelo cortado batidinho na frente e aquele rabinho ridículo atrás. Tinha ombreira, calça de cintura alta, combinação de cores que hoje faria a gente pedir desculpas em público. Os anos 1980 eram meio bregas, gente. A música era maravilhosa. A gente se divertia. Tinha uma energia boa. Mas a estética não era exatamente o nosso forte. E agora a inteligência artificial resolveu melhorar a década. Até nisso a trend chegou antes da memória. Talvez seja essa a grande novidade do nosso tempo: a gente não acompanha mais as tendências. Corre atrás delas. Quando aprende o nome, ela já morreu. Quando compra, saiu de moda. Quando começa a gostar, alguém inventou uma variação. E quando, finalmente, entende o que é um morango cravejado, aparece a mexerica temperada. É uma corrida sem linha de chegada. Por isso, confesso, às vezes tenho saudade de quando as coisas demoravam um pouco mais para virar tendência. Dava para gostar de uma coisa por alguns anos sem medo de descobrir que ela já estava ultrapassada. Hoje não. É preciso ser rápido. Muito ligeiro. Porque trend é igual caneta dentro de casa: quando você procura, desapareceu. E quando finalmente encontra... já não serve mais.Porque alguém inventou outra.