(Reprodução) Eu precisava trocar de celular. Não porque ele estivesse dando sinais de cansaço — nada de tela piscando, bateria viciada ou aquela temida linha verde atravessando o display como um raio do apocalipse tecnológico. O meu simplesmente morreu. Sem aviso prévio, sem despedida, sem direito a últimas palavras. Um belo dia, resolveu falecer. Depois do luto, prometi a mim mesma que não esperaria outro aparelho entrar em coma para comprar um novo. Vi então uma promoção na Amazon. Nada dessas ofertas absurdas que fazem a gente desconfiar. Era só um preço bom. E eu sempre comprei lá sem problema algum. Aliás, compro de tudo pela internet. Absolutamente tudo. De comida a torneira. De shampoo a sapato. Acho prático, rápido, e existe um prazer muito específico em pesquisar quinze versões da mesma coisa sem precisar falar com ninguém. Eu já sabia exatamente o celular que queria. Cliquei, comprei e comecei a acompanhar a entrega como quem espera notícia de viagem de alguém querido. Só então descobri que, para produtos caros, a Amazon envia um código por e-mail que precisa ser informado ao entregador. Parece coisa de filme de espionagem. O problema é que eu nunca estava em casa e, naturalmente, o porteiro não tinha autorização da CIA para saber a senha secreta. Na primeira tentativa, o entregador foi embora com meu celular e meu sonho. Na segunda, eu já tinha deixado o código com o porteiro. Só que há um detalhe importante: o código muda a cada tentativa frustrada. Segurança máxima. E quer saber? Achei ótimo. Cuidado nunca é demais. Na terceira vez, por um alinhamento raro dos astros, eu estava em casa. Desci ansiosa para pegar a caixa. Ela vinha estampada com a frase: “Abra e sorria”. Achei simpático. Voltei para o apartamento carregando aquele pacote com o mesmo cuidado de quem leva um bolo confeitado. Peguei o estilete e comecei a enfrentar as quinhentas camadas de fita adesiva. A embalagem parecia protegida para atravessar um conflito diplomático. Quando finalmente abri as abas da caixa, levei um susto. No lugar do celular, encontrei dois pequenos pula-piratas. Sim. Dois. Aquele brinquedo infantil em que a gente enfia miniespadinhas num barril até um pirata saltar pelos ares num misto de diversão e sadismo pedagógico. Só que em versão miniatura e vagamente deprimente. Fiquei parada alguns segundos tentando entender se havia mais alguma camada da embalagem. Talvez o celular estivesse escondido. Talvez fosse uma ação promocional. Talvez eu tivesse enlouquecido. Mas não. Era só aquilo mesmo: dois pula-piratas genéricos ocupando o espaço onde deveria estar meu novo celular. E então eu comecei a rir. Não um riso feliz, como sugeria a caixa. Era uma gargalhada de incredulidade. Daquelas que nascem quando a realidade ultrapassa qualquer capacidade humana de argumentação. Porque, sinceramente, o que alguém faz numa situação dessas? Liga para quem? Explica como? “Boa tarde, acho que houve um pequeno engano. Comprei um smartphone e recebi brinquedos piratas.” Até tentei reclamar. Ninguém respondeu. Até hoje, aliás. Mas consegui cancelar a cobrança no cartão e o dinheiro voltou. Resolvi contar essa história porque, na semana passada, li duas matérias de A Tribuna Online sobre consumidores que passaram por situações parecidas. Um comprou celular e recebeu leite condensado. Outro, sabão em pó. Nos comentários, apareceram dezenas de relatos semelhantes. O curioso é que ninguém explica nada direito. O consumidor fica ali, segurando um detergente, um pacote de arroz ou dois pula-piratas, tentando entender em que momento a própria vida virou esquete. Meu celular novo? Comprei outro pessoalmente. Mas até hoje, toda vez que abro uma caixa, sinto um leve frio na espinha. Vai que dessa vez vem um gatinho, um saco de cimento ou uma air fryer.