Os nevoeiros, geralmente comuns um pouco mais à frente, se adiantaram e temos acordado com a cidade envolvida na névoa, como se embrulhada em papel de seda, como bem disse Rubem Braga (Danilo Santos/TV Tribuna) Queria abrir o jornal de hoje e só ler notícias boas. Ligar a TV e ser inundada por histórias leves e de finais felizes. Clicar nos meus sites preferidos e abrir texto após texto de palavras alegres e fotos de gente sorridente. Se um gênio da lâmpada aparecesse, seria esse meu pedido. Mas as notícias teriam de ser reais, assim como a escassez de histórias tristes. No contraponto dessa vontade, sempre gostei de assistir a filmes tristes, daqueles que a gente chora sem parar. Também sou adepta de músicas nostálgicas e melancólicas. Me faz bem chorar por histórias ficcionais. Vira-e-mexe, falo para as amigas ou para as irmãs: vamos assistir filme para chorar? Dá um certo alívio me esvair em lágrimas por problemas que são obra da ficção. Sem limites ou constrangimentos. Acabou, lava o rosto e come uma pizza. Somos treinados a nos segurar. A dar uma de forte quando alguém nos puxa o tapete. Quando sofremos uma desilusão amorosa e até se precisamos ser a base para alguém doente ou mais triste que nós. Mesmo quando a dor é a do vazio do luto, nos é cobrada força. Basta ver as mensagens nas redes sociais: “Força para você e sua família” é o que mais se escreve. Eu entendo: as pessoas que nos amam nos querem bem. Mas chorar faz bem. Daqueles choros de soluçar, de acordar inchada como um baiacu. Parece que, literalmente, lava a alma. Não sei quem foi que incutiu na mente que lágrimas são fruto de fragilidade. E se forem, não há problema. Podemos e devemos nos permitir ser frágeis. Essas semanas cinzas são mais melancólicas, preguiçosas. Difícil mesmo é sair da cama e vencer o dia. Já estamos em julho e o mês que nunca termina está virando a esquina. Sim, agosto vem aí e o ano corre bem mais rápido do que eu, que estou meio que em passos de tartaruga. Os nevoeiros, geralmente comuns um pouco mais à frente, se adiantaram e temos acordado com a cidade envolvida na névoa, como se embrulhada em papel de seda, como bem disse Rubem Braga. É bonito acordar e ‘ver’ os prédios escondidos pela neblina, que vai caindo em orvalho, lembrando que aqui é muito úmido sim, porque o mar está logo ali, nosso vizinho que amamos. A paisagem do entra e sai dos navios fica ainda mais singular quando encoberta pelo nevoeiro. É romântico e misterioso, apesar dos problemas práticos que o fenômeno implica. Faz todos ficarem em compasso de espera, obrigados a parar e só observar. Nada de balsas ou manobras na baía. Na minha varanda, as plantas estão felizes. Depois de passarem maus bocados no calorão, agora não há melancolia ou lágrimas. Para elas, a estação tem sido um alento. As orquídeas estão com folhas vistosas, bem verdinhas, já vestidas e prontas para florescer na primavera, mostrando que tudo tem seu tempo certo, até mesmo a fragilidade, que às vezes cobre nossas perspectivas como nevoeiro.