Durante muito tempo, eu tinha certeza de que jamais conseguiria viver sem café. Logo eu, que me considerava uma viciada assumida. Daquelas que acordam pensando na primeira xícara e acreditam que o cérebro só começa a funcionar depois do primeiro gole. Até que veio a recomendação médica. A gastrite decretou: era hora de dar férias à cafeína. Confesso que imaginei um cenário dramático. Previa dores de cabeça, mau humor, crises de abstinência dignas de documentário. Mas, pasmem: nada aconteceu. Não enlouqueci. O mundo continuou girando. Para enganar o cérebro, recorri ao café descafeinado, esse sim liberado pelo médico. Apenas um por dia, logo pela manhã. Meu marido sempre preparou nosso café, e eu jurava que só aquele aroma seria capaz de me fazer começar bem o dia. Descobri que o perfume continuava sendo quase tão importante quanto a cafeína. O descafeinado deu conta do recado. E foi assim que os chás entraram na minha vida. Todos sem cafeína, porque a gastrite não estava para brincadeira. Passei a experimentar combinações que jamais imaginaria comprar: maçã com camomila e canela, morango com amora, manga com laranja, frutos silvestres, limão com framboesa... Minha despensa ficou parecendo uma quitanda aromática e colorida. Posso dizer que tudo o que falam sobre o café tirar o sono era verdade. Pelo menos para mim. Dormi melhor. Claro que a melhora da gastrite também ajudou, afinal, ela também fazia plantão nas minhas madrugadas. Hoje, estou livre dela, mas continuei reduzindo o café. Tomo um ou dois por dia, sempre até umas duas da tarde. Os chazinhos de sabor naturalmente adocicado ainda ganharam outra função: quando bate aquela vontade de atacar uma sobremesa, eles enganam bem o paladar. E ainda ajudam a aumentar a ingestão de líquidos, exatamente como a nutricionista recomenda. Descobri até os chás pretos descafeinados. Sempre gostei de chá preto. Acho que é porque ele tem gosto de memória. Lembro da minha mãe comprando aquele que vinha numa caixinha vermelha, com um bule branco estampado, da marca Tender Leaf. Achava aquele ritual sofisticado. O aroma invadia a cozinha, e eu ficava curiosa. Mas ela só me deixou experimentar quando eu já tinha uns 12 anos, porque dizia que tinha cafeína. Até hoje, sempre que tomo um gole de chá preto, volto para aqueles dias frios em que ela preparava a chaleira. É impressionante como um sabor consegue atravessar décadas sem pedir licença. Algumas bebidas aquecem muito mais do que as mãos. Existe também aquele folclore familiar de que há um chá para cada mal. Minha avó acreditava piamente nisso. Queria resolver qualquer problema com um bule fumegante. O campeão das recomendações era o boldo. Esse eu nunca consegui gostar. Nem com açúcar, mel ou promessa de cura instantânea. Mas hoje, curiosamente, quando sinto aquele cheiro amargo, não penso mais no gosto. Penso nela. Penso em cuidado. Camomila era o remédio oficial das cólicas da minha irmã caçula. Bastava colocar a água para ferver com as florzinhas secas, que a casa inteira parecia desacelerar. Talvez seja por isso que até hoje seu perfume me transmite uma paz difícil de explicar. Só o cheirinho já acalma. No fim das contas, descobri que chá nunca foi apenas uma bebida. É pausa, aconchego. É memória líquida. Quem sabe existe um chá para cada fase da vida. O da infância tem gosto de colo. O da juventude, de descobertas. O da maturidade, de autocuidado. E o da gastrite... bem, esse tem gosto de resignação. Hoje continuo fiel ao meu cafezinho. Mas nossa relação ficou mais saudável. Não somos mais inseparáveis, apenas bons amigos que se encontram pela manhã e, às vezes, depois do almoço. Os chás ocuparam o resto do dia e um cantinho inesperado do coração. Só continuo fazendo uma ressalva: se algum dia alguém aparecer dizendo que boldo é delicioso, aí sim vou desconfiar que essa pessoa precisa de um médico. Ou, no mínimo, de um chá de camomila. *Jornalista e gastróloga fernanda.lopes@grupo-tribuna.com