(FreePik) Todo mundo conhece alguém assim. Aquela pessoa que não conversa, apresenta um seminário. Você começa falando do clima e, quando percebe, já está no meio de uma explicação detalhada sobre um estudo recente, uma técnica revolucionária ou um conceito tão específico que parece ter sido inventado ali, na sua frente, só para prolongar o assunto. É impressionante como sempre existe uma brecha. Sempre. Você comenta: “Nossa, hoje fez calor, né?” E pronto. Em três segundos, a pessoa já está falando sobre aquecimento global, ilhas de calor urbanas, um artigo publicado em uma revista que você nunca ouviu falar e uma previsão para 2047 que, sinceramente, você só queria ignorar enquanto toma seu café, que, segundo ela, está prestes a acabar por causa do clima. Eu me policio para não ser assim. Juro. Porque dizem, e eu confirmo, que jornalistas, quando se encontram, só sabem falar de jornalismo. E não é um papo leve, não. É discussão acalorada, bastidor de redação, aquela história de “você não sabe o que aconteceu no fechamento daquele dia…”. A pessoa começa com um “rapidinho” e quando vê já está recriando a edição inteira. Pior são os maridos, esposas, amigos próximos… que não são jornalistas, mas já poderiam pedir o diploma por osmose. Sabem mais de fechamento, editor, lead e deadline do que muita gente da área. Ficam ali, com aquele olhar de quem já ouviu a mesma história em três versões diferentes. Até dão seus pitacos. Mas sejamos justos: isso acontece com qualquer grupo de profissionais que se encontram. Tenho um colega personal trainer que é praticamente um Discovery Channel sobre o corpo humano. Basta cruzar com ele em qualquer aniversário que pronto: lá vem aula. Não importa se você está com um pedaço de bolo na mão, aliás, principalmente se estiver. Ele fala de postura, de ativação muscular, de evolução de alunos (com histórias que começam no sedentarismo e terminam quase nas Olimpíadas), de técnicas com nomes que pareciam senha de Wi-Fi. Eu só balanço a cabeça, finjo entender, enquanto penso na lista de afazeres do dia seguinte. Resultado: pelo menos ele me faz correr. Dele. Minha avó Nilva resolveria tudo com uma palavra só: “Precisa de chá de simancol”. Simancol é essa sabedoria rara de perceber que uma roda não é palco, que conversa não é monólogo e que, por mais fascinante que seja o seu assunto, ele não precisa dominar absolutamente todos os momentos da vida. A gente não é só trabalho. Ou pelo menos não deveria ser. Já faz tempo que mudei meus temas preferidos. Hoje, se você me der abertura, falo por horas sobre comida, séries, filmes e livros, muitos que eu queria esquecer só para ler de novo pela primeira vez. Futebol já esteve nessa lista. Hoje… com a fase do Santos e da seleção brasileira, confesso que estou praticando o desapego. É uma questão de saúde emocional. No fundo, todo mundo tem um assunto que ama, aquele que faz os olhos brilharem e o tempo desaparecer. O problema nunca foi ter paixão. O problema é esquecer que o outro também tem.