(Reprodução/ Unsplash) Antes, para resolver um problema, a gente pegava uma senha e enfrentava uma fila. Hoje, a fila continua existindo, mas cabe inteira dentro do celular. E, convenhamos, ela é bem mais criativa. Outro dia precisei fazer uma assinatura digital. Pensei comigo mesma: “Moleza. Já fiz isso antes pelo Gov.br. Cinco minutinhos e pronto”. Ah, a inocência humana. Essa capacidade maravilhosa de acreditar em finais felizes. Primeiro obstáculo: eu havia desinstalado o aplicativo. Não por birra, mas por sobrevivência. Meu celular anda em regime de lotação máxima. Hoje existe aplicativo para tudo. Banco, streaming, supermercado, farmácia, comida, táxi, estacionamento, academia, nutricionista e provavelmente em breve teremos um app para controlar os aplicativos. Lá fui eu baixar o Gov.br novamente. Mas eis que surge uma mensagem misteriosa, digna de filme de ficção científica: “Seu celular está em modo desenvolvedor”. Modo desenvolvedor? Desenvolvedor de quê? Eu mal consigo desenvolver paciência. Corri para o oráculo moderno, também conhecido como Google, e descobri que bastavam alguns passos simples. “Simples” é uma palavra curiosa na internet. Significa apenas que você precisará fazer uns dez cliques em lugares que jamais imaginou existir. Depois de uma caça ao tesouro nas configurações do aparelho, consegui desativar o tal modo. Vitória! Ou assim pensei. Voltei à loja de aplicativos, baixei o Gov.br em segundos e finalmente fui fazer o login. Só que não. Além da senha, o sistema queria uma biometria cadastrada em alguma coisa do governo. Coisa que, aparentemente, eu não possuía. Tudo bem, pensei. Entro pelo banco. Afinal, já tinha feito isso um século atrás. Ledo engano. O aplicativo passou a exigir agência, conta e outros dados que, obviamente, eu não sei de cabeça. Tive que abrir o aplicativo do banco — outro residente permanente do meu celular — consultar os números, anotar e voltar para o Gov.br. Foi então que surgiu uma entidade desconhecida: a chave de seis dígitos. Que chave? Nunca ouvi falar nessa chave. Nunca precisei dessa chave. Quem inventou essa chave? Onde ela vive? Do que se alimenta? Nesse momento, enquanto o trabalho se acumulava e a assinatura precisava ser feita para ontem, tomei uma decisão drástica. Abandonei a missão. Baixei um aplicativo gratuito de assinatura digital, resolvi tudo em cinco minutos e, ato contínuo, desinstalei o bendito. Porque meu celular já vive pedindo socorro. Qualquer dia desses, tenho certeza de que ele vai exibir uma mensagem sincera: “Minha filha, escolha: ou eu ou os aplicativos.” E talvez ele tenha razão. Passamos décadas ouvindo que a tecnologia veio para simplificar a vida. Simplificou tanto que, para fazer uma simples assinatura, precisei consultar o Google, visitar as configurações do aparelho, abrir a loja de aplicativos, instalar um aplicativo, descobrir um modo desenvolvedor que eu nem sabia que existia, abrir o aplicativo do banco, procurar números que não decoro e ser derrotada por uma chave de seis dígitos. No fundo, a burocracia não acabou. Ela apenas fez um curso de informática. P.S.: Demorei menos para escrever essa crônica do que para assinar o tal documento.