(FreePik) Ando meio melancólica ultimamente. Li na coluna Dia a Dia que uma rua do Marapé ganhou o nome de um falecido colega, Marcos Duarte, que era chamado de Marquito. Urbanitário e jornalista, trabalhamos juntos na assessoria de imprensa da Sabesp em um curto período há 25 anos. Ele era funcionário de carreira da empresa e um atuante sindicalista. Em um primeiro momento fiquei feliz pela justa homenagem. Depois, lamentei novamente sua partida precoce e por fim me dei conta de que ultimamente essa coisa de conhecidos virarem nome de algum próprio público anda ficando mais comum. Tranquilos somos quando andamos pelas avenidas e estudamos em escolas que homenageiam pessoas das quais nem fazemos ideia quem foram. No máximo, uma pesquisa no Google possa nos informar. Agora, passar pela placa e se dar conta de que estudou ou trabalhou com o cidadão ou cidadã cujo nome está na placa só joga na cara que você está envelhecendo e que suas referências estão virando páginas da história. Melancólico, não é? Dá aquela sensação de ampulheta de que o tempo é areia escorrendo por entre os vãos, impossível segurar, represar. O jeito então é viver. Fim de ano, não consigo evitar, sempre tenho essas reflexões, que grudam como areia da praia no pé. Eu sacudo, passo água, bato na grama, mas sempre sobra um pouco aqui e ali. A cada placa, a cada nome, vou confirmando que o tempo é um relógio teimoso – só sabe ir para frente. E se ele nem olha para trás, que seja! Se teima em correr, que eu teime em viver. Não sei quem foi que inventou de batizar as ruas, escolas, hospitais, bibliotecas homenageando quem se foi. Acho mais interessante do que uma data. 23 de Maio. 9 de Julho. 7 de Setembro. Se bem que falam que depois que morre todo mundo vira santo e até quem não merece nem uma etiqueta numa caixa de sapato acaba ganhando uma placa na rua. A gente sabe que isso acontece. Mas tem quem mereça homenagens. Quando eu era criança morei em uma rua sem nome. Era intitulada Projetada algum número que não me lembro. Depois, recebeu a plaquinha denominando-a Aurélio Ponna. Só fui saber quem ele era ao escrever esta crônica. Ele construiu a escola Matteo Bei em 1950, uma das mais tradicionais de São Vicente. Se esses momentos trazem melancolia, também nos reforçam o valor de cada instante. Se o tempo insiste em seguir em frente, parece que somos nós quem devemos decidir como seguir, não é? Talvez este momento de fim de ano, que sempre inspira revisões e balanços, tenha um sabor a mais quando misturado a essas memórias. E, se sobra sempre um pouco de areia nos pés depois de tantas reflexões, que ela nos lembre de aproveitar a caminhada.