(Imagem Ilustrativa/Unsplash) Outro dia, no elevador de um prédio desses em que todos os médicos decidem instalar seus consultórios, ouvi uma conversa que deu vontade de me meter e me fez pensar. Fiquei com a segunda opção, porque só vou entrar numa conversa com quem não conheço se for chamada. Enfim, a mulher mais velha falava para a menina, que deduzi ser a filha: “Você tem tudo, uma vida boa, namorado, estudo, casa, família. Não sei porque fica assim”. O ‘assim’ acho que era insatisfeita. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Quantas vezes a gente não se pega fazendo o mesmo: julgando quem aparenta possuir tudo e, apesar disso, não parece plenamente feliz. Mas será que a gente não tem o direito de buscar mais, de sentir uma lacuna, um vazio? Às vezes, parece que temos muito, mas não é bem isso que queríamos ter? Tem fases na vida que mesmo que tenhamos alcançado muitos objetivos, ainda sentimos faltar algo. Acho que a menina amuada do elevador está passando por uma dessas. E a mãe continuava: “A gente tem saúde filha. Só isso já devia ser motivo para agradecermos”. Ela tem razão, mas quem disse que sentir combina com estar? Nem sempre. Chegando ao 8o andar, elas saíram do elevador e eu segui, já que meu exame devia ser no céu, nunca chegava. Entrou um casal de senhores. Ele reclamando que o joelho estava doendo e que, tiro e queda, iria chover. Olhou para mim e profetizou: “Ele (o joelho, claro) nunca erra. É melhor que qualquer meteorologista”. Eu entendo. Meu pai também acertava quando o tempo iria mudar. A perna era o seu satélite particular. “Ainda bem que trouxe guarda-chuva”, respondi e o senhor pareceu satisfeito. Encontrou alguém que acreditasse em suas previsões, já que a esposa, enquanto eu respondia, desdenhava dos dotes premonitórios do marido. Mais uma parada, 12o andar, e entra uma menina em seus felizes 5 ou 6 anos. Meio assustador entrar numa caixa fechada cheia de estranhos. Mas não para ela, que já desandou a tagarelar. “Mãe, será que ele vai me dar pirulito ou bala?” A mãe, distraída no celular, nem escutou. Devia estar vendo mensagens do trabalho, porque a cara era de preocupação. A filha repetiu mais alto. “Filha, esse médico não é como o outro. Aqui, são só exames que você vai fazer”. “Não quero tirar sangue, mamãe”. “Eu te dou um pirulito depois se você for comportada”, respondeu a moça, que parecia saber que não seria fácil. Já sofri pela menina e pela mãe e torci para que fosse tudo tranquilo. Finalmente, chegou o 15º pavimento. Saio e ando até a porta do consultório. Quando abro, dá até desânimo. Percebo que ainda vou ouvir muitas conversas, já que a sala de espera não tem nem onde sentar. Para minha surpresa, assim que consigo um lugarzinho apertado no sofá, uma senhora ao lado olha para mim e fala: “Adoro suas crônicas. Primeira coisa que leio aos sábados”. Fico lisonjeada, é fato, mas também sem graça, confesso, nessas ocasiões. Começamos um bate-papo sobre uma série de livros (As Sete Irmãs) que indiquei em uma matéria no domingo+ e que ela estava adorando. Ficou viciada como eu. Contou que passou algumas noites em claro para chegar ao final. “Tive que comprar todos porque não consigo parar de ler. Um desfalque na conta bancária, mas está valendo cada centavo”. Uma manhã que parecia ter tudo para ser um tédio, na sala de espera de um médico, foi estimulante. No final, ainda pensava na menina insatisfeita. Vira e mexe também me sinto assim, mas não hoje e isso já está muito bom.