(FreePik) Em algum momento da vida adulta, a gente para de viver e começa apenas a administrar grupos de WhatsApp. O problema é que ninguém percebe exatamente quando isso acontece. Um dia você só tem “Família”, no meu caso, “Grande Família”. No outro, está presa em “Condomínio”, “Pilates”, “Amigos da escola”, “Primos Lopes”, “Irmãs lindas”, “Aniversário surpresa da Márcia”, “Delivery da marmita”, e um grupo silencioso criado em 2019 chamado “Alunos gourmet”. Isso, além dos grupos do trabalho, que são uma meia dúzia. E não sei o que acontece com as pessoas em dias frios e cinzas, mas basta o tempo fechar para surgir uma necessidade coletiva de conversar. A cidade fica inteira úmida e carente. E esse outono está chuvisco e dia cinza dia sim, outro também. O grupo do condomínio debate de tudo, de vazamento a gente que larga o carrinho no elevador. O da família manda vídeo de sopa. O do trabalho resolve existir às 22h14. Sempre aparece alguém perguntando se “o tempo virou mesmo”. Virou. Estamos todos vendo pela janela. Outro fenômeno do dia chuvoso é que as pessoas ficam filosóficas. Uma garoa e já tem alguém no grupo mandando “a vida passa rápido, né?”. Passa. Principalmente enquanto você tenta descobrir em qual conversa respondeu “bom diaaaa”. Porque o WhatsApp transformou o brasileiro num atendente de SAC em tempo integral. Você não conversa mais. Você gerencia fluxos. E o auge da tensão moderna nem é o áudio de seis minutos (o que deveria dar multa, aliás). É mandar mensagem no grupo errado. Isso separa os amadores dos sobreviventes. O erro acontece rápido. Quase sempre quando você está cansada, de meia, coberta, tomando café enquanto a chuva bate na janela e quarenta notificações surgem ao mesmo tempo. Você digita sem olhar. “Essa vizinha acabou com meu réu primário.” Enviar. Silêncio. Dois segundos depois vem o frio real. Não o da frente fria. O frio interno. O congelamento da alma. Porque a mensagem não foi para sua amiga. Foi para o grupo do condomínio. E existe um tempo específico entre perceber a tragédia e apertar “Apagar para todos”. Um intervalo minúsculo em que a pessoa reavalia toda a própria existência. Aí começam os cinco estágios do pânico digital. Negação: “Talvez ninguém tenha visto.” Desespero: “Todo mundo viu.” Tentativa técnica: apagar freneticamente antes de alguém abrir. Humilhação: “Esta mensagem foi apagada só para você.” E, por fim, aceitação: sumir mentalmente enquanto alguém responde apenas “??”. O pior é que ninguém comenta diretamente. As pessoas fingem elegância. O constrangimento brasileiro é passivo-agressivo. No máximo aparece um “acho que mandou no grupo errado rs”. O “rs” é a pá de cal em qualquer dignidade humana. No fim, acho que envelhecer hoje não é só ganhar rugas. É decorar a foto de todos os grupos para evitar tragédias. É silenciar conversa por oito horas como mecanismo de sobrevivência. É sentir adrenalina quando aparece “Fulano está digitando…”. A modernidade prometeu carros voadores. Entregou ansiedade em 4G e um grupo chamado “Colegas da escola” que manda 73 mensagens por dia.