(Imagem ilustrativa gerada por IA) Outro dia li que guardar objetos quebrados dá azar. Fiquei pensando: será que isso também vale para objetos de quem já não está entre nós? Porque, se for assim, estou encrencada. Não me considero acumuladora, mas tenho dificuldade de abrir mão de coisas que carregam histórias. Depois de esvaziar as casas da minha sogra, avós e pais, reuni louças, fotografias, móveis e pequenos objetos de várias vidas dentro da minha. Quase sempre não são as coisas mais bonitas ou valiosas que nos prendem. Às vezes, basta olhar para uma peça sem graça para surgir uma voz, um cheiro ou uma conversa que hoje faz falta. São objetos que, para qualquer outra pessoa, não tem o menor significado. Para mim, contam histórias inteiras. Tenho uma xícara que era da minha avó e outra que trouxe da casa onde Leonardo da Vinci morou. A alça das duas quebrou, mas não consigo jogá-las fora. Na geladeira, exibo há 30 anos uma foto da minha irmã aos 10 anos. Fica ao lado de imagens das minhas sobrinhas. Está desbotada, mas ainda me faz sorrir todos os dias pela manhã quando vou pegar o leite. Também conservei uma blusa de lã da minha mãe. Ainda a uso, mas lavo à mão, com um cuidado que não tenho com quase nada. Algumas coisas vão mudando de função com o tempo. Passam a ser uma ponte entre o que fomos e o que somos. Basta olhá-los para sentir que o tempo passou sim, mas aconteceu. Quando perdemos alguém, os objetos parecem carregar a responsabilidade de preservar sua presença. Sabemos que a memória não mora numa cristaleira ou numa toalha bordada, mas tente explicar isso ao coração. Também penso nas gerações que virão depois de nós. Será que alguém vai querer guardar essas mesmas coisas? Será que uma sobrinha reconhecerá a história por trás de uma fotografia ou de uma louça antiga? Talvez não. E tudo bem. Afinal, para mim foi valioso. E os álbuns de fotografias. Tenho tantos! Esses, aliás, já decidi que estão no lugar errado, na parte mais alta do armário, aquela que exige escada, banco e uma boa dose de disposição. Na próxima arrumação, vão descer para a estante, bem ao alcance das mãos. Quero poder folheá-los a qualquer hora. Deixá-los à disposição das visitas. Afinal, poucas coisas rendem conversas tão boas quanto fotos antigas. Sempre aparece alguém para rir de um penteado ou lembrar de uma história esquecida. De tempos em tempos, começo uma limpeza. Separo coisas, preparo sacolas, até encontrar uma memória. Então paro, sento e viajo no tempo. No fim, algumas coisas vão embora; outras voltam ao mesmo lugar. Sei que não dá para guardar tudo. Uma casa precisa de espaço para a vida que continua. É preciso escolher para não transformar cada armário num museu familiar. Quanto à história de que objetos quebrados dão azar, continuo desconfiada. Uma xícara sem alça pode guardar uma lembrança; uma imagem desbotada exibe uma vida toda; uma blusa antiga aquece mais do que só o corpo. Se sobreviveu ao tempo, às mudanças e às despedidas, não pode carregar azar. Guarda amor.