(Imagem Ilustrativa/ FreePik) Fui ao cinema esta semana e a sala estava bem movimentada. Saí de lá pensando nos vaticínios de quem decretou, com a segurança de quem profetiza tudo, que os cinemas morreriam com a chegada dos streamings. Não morreram. Alguns filmes recentes ganharam as redes sociais, levaram gente para as salas e provaram, mais uma vez, que certas coisas são mais teimosas do que parecem. É como o rádio, que iria acabar com a televisão. Depois, a televisão acabaria com a internet. E aqui estamos nós, todos vivos e convivendo. Até o jornal impresso que vocês estão lendo segue com seu público. Claro que é preciso se adaptar. Cinema não é mais como antes. E pode ser essa a graça. Quando eu era adolescente, havia fotógrafos na saída dos cinemas. Eles registravam os casais e depois vendiam as fotos. Uma espécie de paparazzo romântico, antes de inventarem o celular com câmera e a mania de clicar absolutamente tudo. Inclusive, descobri uma traição de um namoradinho por causa de uma dessas fotos. Encontrei a imagem na casa dele. Lá estava o cidadão, muito sorridente, ao lado de outra garota, vestindo uma camiseta que eu dei pra ele! A fotografia, que deveria ser uma lembrança, virou prova do crime. Nunca mais olhei para fotógrafo de porta de cinema com os mesmos olhos. A prática não acabou. Só mudou de público. Hoje, fotógrafos ficam na orla registrando corredores e ciclistas, que depois procuram suas imagens profissionais para postar nas redes. O atleta corre alguns quilômetros e ganha um ensaio fotográfico. Viu? Tudo se adapta. Até o flagrante. Também me lembro de quando os cinemas eram enormes. O Roxy recebia mais de mil pessoas. E, quando lotava, a gente sentava nas escadas mesmo. Ninguém achava estranho. Era isso ou voltar para casa. Eu gostava especialmente do Indaiá Arte, menor, aconchegante e com aqueles filmes alternativos que pareciam nos transformar em pessoas um pouco mais interessantes só por termos assistido. O Indaiá Arte não existe mais. Virou prédio. Talvez seja por nostalgia, mas ainda prefiro cinema de rua aos de shopping. O cinema fazia parte da paisagem da cidade, do passeio, da vida. No Gonzaga, principalmente nos fins de semana, era uma multidão e todos se encontravam. Santos sempre foi um ovo. Ou melhor, um ovo de codorna. Pequeno demais para alguém sair de casa sem esbarrar em algum conhecido. E eu gosto disso. Para quem quer se esconder, a cidade continua sendo um péssimo lugar. Quando eu era mais nova, o programa era a dobradinha cinema e pizza. E havia a parada obrigatória no saudoso Zi Tereza. Uma combinação quase tão certa quanto filme e pipoca. Agora, os baldes de pipoca são maiores do que a minha cabeça. Ocupam o colo inteiro e não deixam espaço nem para uma fatia de pizza. Mas como resistir à pipoca de cinema? Ela tem algo que não consigo explicar. Pode ser a manteiga, pode ser o cheiro, pode ser a lembrança. Ou só o fato de que comer pipoca numa sala escura continua sendo uma das poucas coisas que não precisamos justificar. Minhas sobrinhas, de 7 e 9 anos, adoram cinema. Desde pequenas ficam sentadinhas durante o filme inteiro, concentradas na tela. Nesta semana, também reparei em muitos jovens na sala. É bom perceber que o hábito se renova. Eles podem não ter vivido os cinemas enormes, as escadas ocupadas... Mas estão criando as próprias lembranças. E até nós estamos aprendendo novos jeitos de ir ao cinema. Fui com uma turma de amigas a uma sessão que tinha até drinques, numa parceria com um bar de alta coquetelaria. Cinema com coquetel. Quem diria? O antigo cinema e pizza ganhou uma atualização. Agora tem pipoca gigante e drinque elaborado. O cinema não precisa ser como era para continuar sendo cinema. Pode mudar de tamanho, de endereço, de público, de programação e até ganhar um coquetel no meio do caminho. O que parece não mudar é aquela vontade de sair de casa, sentar ao lado de outras pessoas e olhar para uma tela grande por algumas horas. E, claro, comer pipoca. Porque algumas tradições podem até se adaptar. Outras simplesmente não devem.