(FreePik) É engraçado como a gente se preocupa em escolher o presente perfeito para uma criança. Minha sobrinha Gabriela, por exemplo, tem um mundo de brinquedos. Ama bonecas e passou vários natais pedindo um bebê reborn com uma exigência: tinha que ser de silicone sólido. Papai Noel tentou algumas vezes, mas sempre ouvia a mesma reclamação: “Ele não entendeu que era de silicone sólido!”. Até que, finalmente, acertou. Chegou uma boneca tão parecida com um bebê de verdade que dá até vontade de conferir se está respirando. Pois não é que, com tanta boneca, a descoberta feliz da Gabriela foi um papa-bolinhas? Sim, aquele aparelhinho que tira bolinhas das roupas. Ela encontrou um na minha casa e ficou fascinada. Passou horas recuperando meias e blusas. Virginiana, não podia deixar uma bolinha sequer. Uma concentração, uma paciência! Quando fui visitá-la recentemente, em Manaus, levei o tal papa-bolinhas de presente. Foi uma festa. E a mãe dela, claro, agradeceu. Nunca uma brincadeira tinha sido tão útil para a organização doméstica. Mas criança é assim mesmo. A gente compra brinquedos sofisticados e elas se encantam com os potes de plástico do armário da cozinha. Quem nunca viu uma criança abandonar um brinquedo caríssimo para brincar com a caixa? Quando minhas sobrinhas eram pequenas, precisei comprar um controle remoto só para elas. Não funcionava, mas pelo menos o meu sobreviveu à infância das duas. Talvez a graça esteja nisso: transformar objetos banais em grandes descobertas. Agora, nem sempre a história dos presentes termina em felicidade. Tenho uma lembrança natalina que sobrevive há décadas. Eu devia ter uns 10 ou 11 anos e pedi uma bicicleta. Sonhava com os passeios, o vento no rosto, a liberdade. Chegou o Natal, abri o pacote e... roupas! Gente, que decepção! Existem fotografias daquela noite e não há uma única em que eu apareça sorrindo. Enquanto minhas irmãs passeavam de bicicleta, a minha já estava pequena. E eu, emburradíssima, achando que tinha sido vítima da maior injustiça da história do Natal. Só fui entender tudo em 22 de janeiro, dia do meu aniversário, quando finalmente ganhei a bicicleta. Meus pais tinham planejado a surpresa, mas quase desistiram diante do meu mau humor. Imaginem aguentar quase um mês de cara feia! Hoje entendo perfeitamente. Natal e aniversário em meses seguidos exigem uma engenharia financeira familiar. Minha sobrinha Giovana, que também nasceu no começo de janeiro, vive esse esquema: um familiar dá presente melhor no Natal, outro, no aniversário. É preciso distribuir a felicidade para não falir a família. Meu pai, aliás, às vezes comprava o brinquedo de que ele gostava, não o que a gente pedia. Minha irmã Fanie queria uma boneca patinadora e ganhou uma que fazia bambolê. No Natal seguinte, fomos junto às compras para garantir que ele não inventasse moda. Pensando nessas histórias, chego à conclusão de que a felicidade infantil é mesmo imprevisível. Pode estar numa bicicleta, numa boneca ou num simples papa-bolinhas. Só não contem isso ao Papai Noel. Ele já tem problemas suficientes para acertar o tipo de silicone.