O comércio global ainda depende de um ponto de passagem. Pelo Estreito de Ormuz passa cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela relevante dos derivados que abastecem a navegação no mundo. Em um setor responsável por mais de 80% do comercio internacional, a segurança dessa rota não é apenas regional, é estrutural. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! As tensões recentes envolvendo o Irã, somadas a riscos sobre refinarias no Oriente Médio, recolocam esse ponto no centro do debate. O impacto potencial vai além do petróleo bruto, afeta diretamente a disponibilidade de bunker, o combustível que abastece a frota global de navios. Em um cenário de restrições logísticas e redução da capacidade de refino, o mundo pode enfrentar um choque relevante de oferta. Mas, o problema não para por aí. A limitação do tráfego na região força embarcações a rotas mais longas, contornando continentes e elevando o consumo por viagem. O resultado agrava o desequilíbrio simultâneo: menos oferta e mais demanda. Em um mercado que movimenta mais de 200 milhões de toneladas por ano, pequenas variações percentuais geram efeitos significativos, com pressão direta sobre preços, margens e, por consequência, no custo do comércio global. Esse cenário atinge uma indústria que já opera sob pressão. A Organização Marítima Internacional (IMO) tem ampliado as exigências de descarbonização do transporte marítimo, impulsionando a busca por alternativas ao combustível fóssil. Até aqui, a transição vem avançando de forma gradual, limitada por custos, tecnologia e infraestrutura. A crise de Ormuz, nesse contexto, vira oportunidade. Não cria essa transição, mas pode acelerá-la. Mediante a perspectiva de escassez, a adoção de combustíveis alternativos deixa de ser apenas pauta ambiental e passa a ser também uma questão de segurança para o suprimento global. Nesse aspecto, a situação atual pode se transformar em uma janela de potencial. Visto que, entre as alternativas em discussão, poucas combinam disponibilidade, escala e infraestrutura existente. O etanol, embora ainda pouco explorado no transporte marítimo, reúne características que o colocam em posição estratégica, especialmente no contexto brasileiro. Movimentos recentes da Maersk, por exemplo, reforçam essa tendência: após testes iniciais com misturas de 10%, a companhia avançou para avaliar o uso de até 50% de etanol em combustíveis marítimos, com resultados operacionais promissores. Embora ainda em estágio inicial, iniciativas desse tipo indicam que o etanol pode emergir como uma alternativa viável no curto prazo, sobretudo em um cenário de pressão por custo e descarbonização. Nessa circunstância, o Brasil tem condições de ganhar protagonismo. O País já é um dos maiores produtores globais de etanol e vem ampliando sua produção a partir do milho. A tendência de crescimento, aliada à possibilidade de excedentes estruturais, cria as condições para inserção no mercado de energia. Mais do que a produção, o Brasil possui um diferencial crítico: a logística. Diferentemente de outros combustíveis alternativos, que exigem novas cadeias de abastecimento, o etanol pode se apoiar em infraestrutura já existente. Terminais portuários, tancagem e abastecimento de embarcações por meio de barcaças permitem sua integração ao abastecimento marítimo, reduzindo custos e tempo de implantação. O mundo pode estar diante de uma nova crise de abastecimento marítimo. E, como em outros momentos, crises geopolíticas redesenham mercados e levam a mudanças estruturais. Em um setor pressionado por escassez e transição energética, quem combinar disponibilidade de produto e eficiência logística se posicionará como uma nova liderança. O Brasil pode assistir de longe ou ocupar espaço.