(Claudio Neves/Portos do Paraná) A agenda de leilões portuários de 2025 marcou um dos ciclos mais relevantes da infraestrutura brasileira nos últimos anos. O setor entrou em 2026 com expectativas ambiciosas: um pipeline robusto, ativos estratégicos espalhados por diferentes regiões brasileiras e a percepção de que o movimento de ampliação da participação privada nos portos do País seguiria em aceleração. Em 2025, o Porto de Paranaguá esteve no centro dessa agenda. A disputa pelos terminais PAR14, PAR15 e PAR25, voltados à movimentação de granéis vegetais, atraiu desde operadores já consolidados até fundos de investimento e grupos internacionais interessados em ampliar presença no Brasil. No mesmo ano, o leilão do canal de acesso de Paranaguá representou um marco para o setor ao transferir à iniciativa privada, envolvendo pela primeira vez no País atividades como dragagem, derrocagem e manutenção do canal, criando maior previsibilidade operacional e capacidade de planejamento de longo prazo. A expectativa para 2026 era de continuidade desse ritmo. O pipeline anunciado reunia alguns dos projetos mais aguardados da infraestrutura logística nacional: o Tecon Santos 10, potencialmente o mais relevante terminal de contêineres do país; o SSB01, com potencial de redefinir o papel estratégico de São Sebastião; os terminais de granéis IQI15 e IQI16, em Itaqui; o novo terminal ITJ01 e o canal de acesso de Itajaí; os terminais VDC29, MUC04 e MUC05; o terminal de passageiros do Recife; o RDJ06A, no Rio de Janeiro; além dos projetos dos canais de acesso de Santos e Rio Grande e da Hidrovia do Rio Paraguai. No início do ano, havia a percepção de que o calendário consolidaria uma das maiores agendas de leilões portuários já vistas no país. Mas, passados os primeiros meses de 2026, o cenário começou a indicar outra dinâmica. Até o momento, apenas um bloco de arrendamentos foi efetivamente realizado na B3, em fevereiro, com os terminais POA26, em Porto Alegre; MCP01, em Santana (AP); e NAT01, em Natal (RN), todos voltados à movimentação de granéis sólidos e com previsão de mais de R\$ 226 milhões em investimentos privados. Paralelamente a isso, adiamentos sucessivos e até mesmo uma possível postergação de prazos para 2027. Esse movimento evidencia uma característica dos projetos de infraestrutura portuária no Brasil: embora os anúncios de pipeline mobilizem o mercado e gerem expectativas elevadas, a concretização dos leilões depende de uma estruturação longa, técnica e institucionalmente complexa. O processo envolve estudos de viabilidade, consultas e audiências públicas, análises regulatórias, avaliação do Tribunal de Contas da União (TCU) e, somente ao final, a publicação do edital e a realização do certame. Cada etapa demanda coordenação entre diferentes agentes públicos, segurança jurídica e alinhamento institucional. Além disso, trata-se de projetos intensivos em capital. Arrendamentos e concessões portuárias exigem investimentos relevantes já nos primeiros anos de contrato, incluindo obras de infraestrutura, aquisição de equipamentos e implantação operacional, muitas vezes antes de qualquer geração significativa de receita. Em um ambiente macroeconômico ainda marcado pelo elevado custo de capital, o avanço dessa agenda depende de prioridade política, previsibilidade regulatória e capacidade de execução. O atual ciclo de leilões portuários continua sendo um dos mais relevantes já desenhados para a infraestrutura brasileira. O interesse privado permanece elevado, os ativos seguem estratégicos e o setor mantém forte potencial de expansão. Contudo, o mercado precisa de maior previsibilidade para que as empresas continuem se posicionando e sendo atraídas por investir no Brasil.