Sem cerimônia pública e um dia antes do esperado, o presidente Jair Bolsonaro deu posse a Marcelo Queiroga como ministro da Saúde. Assinou o termo oito dias depois de ter anunciado que o médico seria o quarto titular do cargo em menos de um ano e durante a pandemia de covid-19. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! A nomeação permitirá que Bolsonaro leve o novo ministro para a reunião com os presidentes de Legislativo e Judiciário, marcada para hoje, na qual tratarão da rápida e letal evolução da doença no País. Até agora, sobram indícios de que o ministério continuará submisso às ideias heterodoxas do Executivo sobre o coronavírus e a contenção de seus efeitos. A partir do encontro desta quarta-feira, entretanto, é possível crer em uma gradual transformação na postura do Governo. Essa alteração não decorreria somente de eventuais alertas por parte dos presidentes do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira. A manifesta preocupação do presidente da República é com a retomada econômica, tida por ele como vital a sua sonhada reeleição. Porém, a carta aos três poderes, em que economistas, empresários e banqueiros finalmente clamam por ação unificada contra a covid-19, é uma peça com alto poder persuasivo. Os cerca de 500 signatários do documento reconhecem não haver como pensar em crescimento da economia sem vacinação rápida e massiva, com liderança nacional. É uma cobrança para que a União cumpra o dever de tomar as rédeas, desde que baseada na ciência. Se a relevante fatia do Produto Interno Bruto (PIB) nacional que subscreve a carta se manifesta favoravelmente a medidas mais duras de isolamento social, ainda que custem prejuízo financeiro a seus negócios, o presidente vê desmontadas suas alegações contra cuidados emergenciais de saúde coletiva. Como um parêntese que reforça a questão, parte considerável dos que assinaram o documento defendeu a eleição de Jair Bolsonaro e nele acreditava para o atendimento de antigos pleitos, como a reforma tributária. Está, portanto, livre do ridículo a que fervorosos partidários do presidente expõem os que contestam a ação — ou a inação — governamental. O teor do apelo do mercado, que se deverá debater na reunião dos presidentes dos poderes, pode ser traduzido como um voto de confiança ao Governo. Talvez, contudo, o último. E, por ser uma natural cobrança ao Executivo, e não aos demais, os outros poderão se sentir impelidos a tomar uma atitude contra o primeiro, caso este não o faça antes em relação à pandemia. Bolsonaro também tem margem de negociação: pôs um médico na Saúde e poderá se transmutar para melhor na condução do problema. Mudando, ganhará peso moral para pedir ao empresariado que aporte dinheiro neste combate. Estariam salvos cidadãos, o País e sua imagem perante o mundo.