[[legacy_image_116536]] A violência contra crianças e adolescentes atingiu níveis estarrecedores no País. São 7 mil assassinatos e 45 mil abusos sexuais, ambos por ano, atingindo principalmente meninos negros. Até os 10 anos, os crimes acontecem dentro de casa, com armas da família, ou são estupros em sua maioria praticados por familiar ou conhecido da vítima. Acima dessa idade, na fase da pré-adolescência, durante a transição para as ruas, parte das mortes ocorre em ações policiais. Esses dados se baseiam em boletins de ocorrência das 27 unidades da federação dos últimos cinco anos e foram levantados pelo Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado pela Unicef, agência das Nações Unidas para a infância, e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), e divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo. Com números tão chocantes, as representantes da Unicef e do FBSP, respectivamente, Florence Bauer e Samira Bueno, recomendam algumas medidas essenciais, como capacitar profissionais que trabalham com esse público, o que pode compreender tanto os assistentes sociais quanto profissionais de saúde e as polícias. Também fazem parte da lista garantir a permanência dos jovens na escola, responsabilizar os autores das violências e divulgar às vítimas seus direitos, uma forma de estimular as denúncias. A estatística detalhada impressiona mais ainda. Se o período de contagem for ampliado para cinco anos, o total de assassinatos de crianças e adolescentes no País chega a 35 mil, a mesma quantidade do total de habitantes de muitas cidades espalhadas pelo País - a média é de 20 por dia. Até os 9 anos, são 1.449 homicídios, indicando um aumento da violência doméstica ano a ano, até os 300 de 2020. Até a faixa dos 4 anos, houve uma expansão de 89% nos casos, na comparação de 2016 com 2020. Isso indica uma necessidade urgente de políticas públicas para enfrentar abusos e agressões no meio familiar. Muitas das ocorrências não devem sequer chegar ao conhecimento dos órgãos policiais, gerando traumas para a vida adulta. A violência contra meninos negros merece uma análise específica. Esse alvo preferencial fica mais evidente na faixa dos 15 aos 19 anos, que concentra 31 mil assassinatos de 2016 a 2020. Dessas vítimas, 90% são homens e 80%, negros. No caso do estupro até 19 anos, de 2017 a 2020 (período em que há dados específicos), são 179 mil casos no País. As meninas sofrem 80% dos abusos sexuais, mas os meninos são as vítimas mais comuns entre 3 e 9 anos. Os dados são reveladores e indiscutivelmente apontam que as crianças e adolescentes não recebem a proteção de vida no Brasil. Não é possível se conformar com essa situação que só vai gerar mais violência no futuro. A omissão e a falta de políticas públicas são gravíssimas e só estimulam mais criminalidade na sociedade.