[[legacy_image_52464]] A Universidade de São Paulo (USP), uma das mais conceituadas escolas públicas da América do Sul, alcançou este ano um índice histórico: mais da metade (51,7%) dos alunos ingressantes é proveniente de escolas públicas, uma meta que a instituição havia se imposto em 2017, para ser cumprida nos quatro anos seguintes. E cumpriu. É a primeira vez que isso ocorre desde que a universidade passou a mapear o perfil dos ingressantes, em 1995. Há mais de dez anos, esse índice ficava em torno de 25%. O próximo desafio da USP é se tornar acessível aos mais pobres, uma vez que a maioria dos ingressantes vem de famílias que ganham mais de 5 salários mínimos. A maior acessibilidade a alunos oriundos de escolas públicas é fruto da política de cotas, implantada pela USP em 2018. Em anos anteriores, a presença maciça desses estudantes se dava em cursos menos concorridos, especialmente nas Humanas. No entanto, o percentual de ingressantes de escolas públicas também nas engenharias, Direito e Medicina veio crescendo nos últimos vestibulares. Há um único fator a ser considerado e que pode, eventualmente, ter comprometido o perfil do vestibular 2021. A pandemia e consequente retração da atividade econômica levaram milhares de famílias para o desemprego. Consequentemente, sair da escola particular e migrar para a pública foi um movimento natural em 2020. Em outras palavras, alcançar a meta pode ter ocorrido circunstancialmente, em função do empobrecimento das famílias, ou seja, esses estudantes estavam em instituições particulares antes da crise econômica. Um perfil mais consolidado sobre quem são e de onde vêm os novos ingressantes deverá ficar, portanto, para 2022. O fato histórico, porém, merece análises mais profundas sobre o que se quer da universidade pública. A confirmar a tendência verificada este ano, pode-se dizer que o eixo começa a mudar. Cai por terra a velha máxima de que aos alunos de escolas públicas só restam as instituições particulares de ensino superior, já que o funil dos vestibulares das públicas só deixava passar quem cumpriu a educação básica na rede particular. Adotar o regime de cotas foi assertivo, necessário e fundamental para dar acesso não só a quem estudou em escola pública, mas também aos negros. Só com política de cotas é possível colocar em linha horizontal quem teve trajetórias distintas ao longo da vida, com privilégios de menos e exclusão de mais. No entanto, é preciso ter em mente que esse instrumento não pode e não deve ser encarado como definitivo. Sua existência só se justifica enquanto políticas públicas que qualifiquem a educação básica não são implementadas de forma perene. Igualar o ensino público do particular deve ser a meta dos governos, em todas as esferas. A excelência conquistada pelas universidades públicas é a mesma que se almeja para a educação básica nas escolas oficiais.