A pandemia de covid-19 escancarou a desigualdade social brasileira. Toda esquina é palco do espetáculo do empobrecimento, versão alterada de outros tempos de promessas. Do lado de fora, milhões sem perspectiva de trabalhar, de ganhar, de comer. Dentro de hospitais, cada vez mais gente em dúvida de sair viva. Certezas positivas tornaram-se privilégios. O que resta, ao ver superada de longe a marca de 3 mil mortes diárias por uma doença evitável, são projeções também incertas, mas que levam a uma conclusão: a necessidade de uma ampla reconstrução nacional, que não começará de imediato, mas precisa ser pensada a partir do mais urgente — a sobrevivência. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Sobreviver é um conceito amplo, mas há quem o tome para o falso dilema entre privilegiar saúde ou economia. Tal engano polui o debate político, infecta redes sociais e embota o juízo dos que antes pareciam tê-lo. Em especial, de gente instruída que tinha tudo para não cair na armadilha do simplismo. Não há dúvida: os governos, de Brasília ao do mais humilde município, têm de reunir esforços para garantir que seus habitantes possam estar distantes ao máximo uns dos outros. Inexiste cidade inteiramente composta de miseráveis. Fala-se muito e desde sempre em solidariedade. É hora de partilha, do modo que for possível, com quem se puder alcançar. Entende-se a dificuldade de quem trabalha por conta própria estar impedido de abrir um comércio ou oferecer um serviço. Mas não se justifica, como em São Vicente, que vereadores, à guisa de defender a livre-iniciativa, peçam o afrouxamento da contenção da covid-19. Se os legisladores afirmam compreender a situação de comerciantes, empresários e empreendedores, como noticiado na coluna Dia a Dia da edição de ontem, deveriam se unir à Prefeitura na busca de soluções de emergência para que esses trabalhadores se mantenham sãos. Isenções tributárias, suspensão de cobranças, gratuidade em licenças — tudo isso pode ser obtido em prazo exíguo. Para compensar perdas de receita, a Câmara poderia devolver ao Executivo parte de sua dotação orçamentária. Quase não restam leitos hospitalares. Ainda que houvesse, faltam profissionais de saúde para manter seu funcionamento e a assistência de pacientes, sempre chegando. Na semana que se passou, a Baixada Santista teve 38 mortes por coronavírus em 24 horas, confirmadas entre quarta e quinta-feiras. Foi o período mais letal, na região, desde o começo da pandemia. O Brasil beira 100 mil diagnósticos diários de covid-19. Está cada vez mais fácil encontrar quem conheça alguém que morreu ou que sofre para se recuperar da doença. Se aqueles que não têm obrigações a cumprir ao ar livre ou que exijam deslocamentos continuarem expostos, se equipararão aos piores governantes. Tratar sequelas custará o que o País já não tem e comprometerá renda, consumo, retomada econômica. No horizonte, uma nação cronicamente doente.