[[legacy_image_152015]] Condições específicas do clima e da geografia da Região Serrana do Rio de Janeiro ampliaram os efeitos do episódio trágico de Petrópolis da terça-feira, resultando em mais de cem mortes. Segundo meteorologistas, a massa de ar frio forçou a elevação de ventos úmidos, que encontraram temperaturas mais baixas nas montanhas e potencializaram a enxurrada assustadora. Porém, é inaceitável considerar a natureza local e fenômenos climáticos como únicas causas dessas vidas perdidas. Se as encostas de Petrópolis e das demais cidades serranas são tão instáveis, não poderia haver milhares de famílias morando nessas áreas tão íngremes. Conforme o jornal O Estado de S. Paulo, estudos feitos há alguns anos e um abrangente levantamento de 2017 municiaram as autoridades municipais e estaduais sobre os exatos pontos de risco de acidentes. O que impressiona é que esses dados não surtiram resultados, como o próprio estudo de 2017, feito pela empresa Theopratique a pedido da Prefeitura, lamentou. “Infelizmente, de 1989 para cá (2017), os dados de acidentes, principalmente, os que tiveram vítimas, não foram organizados nem compilados para formar uma base de dados confiável”. No fim das contas, este foi mais um estudo pouco aproveitado, considerando o último balanço de mortos. Com esse trabalho de 2017, a Prefeitura de Petrópolis concluiu o Plano Municipal de Redução de Riscos, que apontou que um quinto da área do município apresentava possibilidade alta ou muito alta para deslizamentos, enchentes e inundações. A recomendação era de que 7,1 mil famílias precisavam mudar para outros endereços mais seguros e que outras 20 mil viviam em pontos arriscados. Mas já existiam outros estudos – o Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro apontou, em 2013, um “risco iminente a escorregamentos” abrangendo 4,5 mil residências. Antes, a inadequação da moradia já era apontada pelo Censo de 2010, com 47% dos domicílios em condições semiadequadas de saneamento. Para finalizar, levantamento mais antigo ainda prova que a situação crítica de Petrópolis não é uma novidade. Entre 1938 e 1989, a cidade registrou 894 acidentes, segundo o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT). Portanto, no caso da Região Serrana fluminense, não dá para culpar apenas as mudanças climáticas. A ocupação indevida das encostas potencializou a ocorrência de acidentes, agora mais violentos. Mas faltam mais investimentos em habitação, única forma de evitar deslizamentos, e fiscalização, como o próprio plano municipal aponta, pois há inúmeras invasões. Não se deve esquecer que, em janeiro de 2011, mais de 900 pessoas morreram soterradas na região (a maioria em Nova Friburgo e Teresópolis) e mais 33, em 2013, em Petrópolis. A cidade não é exceção, infelizmente, e serve de alerta de que ocupações de morros são gravíssimas.