[[legacy_image_288908]] Um terremoto político varreu a Argentina no último domingo, nas palavras do jornal La Nación, com o surpreendente desempenho do candidato de extrema direita, Javier Milei. O economista, um outsider (novato e fora do convencional na política), defende o fim do Banco Central e quer dolarizar o país. Ele se aponta como anarcocapitalista que vai acabar com o kirchnerismo e pretende trocar o ensino gratuito por um sistema de vouchers, privatizar a saúde e desregulamentar o mercado de armas. Com um acervo de ideias tão radicais, o peso ruiu em queda livre, de 17%. Segundo a GloboNews, Milei também defende ideias bizarras, como venda de órgãos humanos. O candidato, entretanto, não tem vínculos tão fortes com o conservadorismo das igrejas ou com as forças armadas, diferenciando-se nesses pontos do ex-presidente Jair Bolsonaro, que já o felicitou. Também não atingiu, pelo menos ainda, o feito do brasileiro, na vitória de 2018 – Milei venceu as prévias argentinas, mas ainda não levou o governo. Esse pleito apenas indica o candidato a presidente de cada coalizão. O vencedor será definido em primeiro turno em 22 de outubro. Haverá uma segunda votação em 19 de novembro se nenhum dos candidatos atingir 45% ou se chegar aos 40% e o segundo ficar a menos de dez pontos percentuais. Milei teve 30% dos votos, enquanto a centro-direitista Patrícia Bullrich superou o aliado, o prefeito de Buenos Aires, Horácio Larreta – os dois somaram 28%, sendo que ela é que concorrerá a presidente. O representante governista, do peronismo esquerdista, Sérgio Massa, não foi bem. Sua coalizão teve 27%, sendo que 21% foram para ele. Esse resultado representa um imenso fracasso em relação a 2019, quando Alberto Fernández-Cristina Kirchner tiveram o dobro dos atuais 6 milhões de votos. Portanto, o recado está dado: os argentinos estão cansados de um desastre na gestão econômica por tanto tempo e da falta de respostas para resolver os problemas do dia a dia. A inflação superou os 115%, a economia continua decadente e a pobreza aumentou. Frente a isso, muitos se acham valer a pena optar pela ponta extremista da política. O protagonismo de Milei se dá em um momento em que se pensava que a extrema direita perdia espaço, como derrotas no Brasil e na Espanha. Neste último caso, a vitória dos radicais era dada como certa, mas a reação da política tradicional foi tão forte que os extremistas não conquistaram a maioria e os outros partidos recusam uma aliança para formar governo. Na Argentina, Bullrich poderá se mostrar como uma direitista equilibrada, cabendo a ela convencer que as ideias de Milei vão empurrar o país ao precipício. Além disso, dolarizar significa sujeitar uma economia do porte da Argentina ao banco central americano (o Equador está dolarizado e continuou com inflação e déficit), abrindo mão, por exemplo, da possibilidade de reduzir os juros para estimular o investimento e o consumo.