[[legacy_image_173287]] Confortaria pensar que os recentes episódios envolvendo crimes de racismo são pontuais, atos isolados praticados por pessoas preconceituosas e desumanas em pleno século 21. Mas o volume de relatos noticiados pela mídia tem sido tão expressivo, que custa a acreditar que são, de fato, singulares. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Um dos mais emblemáticos foi protagonizado no mês passado, na cidade de São Paulo, quando uma unidade de resgate foi acionada pela família de um idoso que parecia estar sendo acometido de um acidente vascular cerebral (AVC). Ao chegar ao leito do doente, a médica socorrista, negra, ouviu o diálogo entre dois familiares do doente: “E agora, filho? Ela é negra”. Ao que o filho responde: “Tudo bem, mamãe, ela está usando luvas”. Semelhante postura teve uma mulher branca, na última segunda-feira, dentro de um vagão do metrô paulistano, ao pedir à passageira que viajava no banco ao lado para se afastar porque seu cabelo de negra poderia passar alguma doença. Não fosse a chegada de equipes da polícia militar, e um linchamento poderia ter ocorrido dentro da estação. Também na Capital, durante sessão na Câmara dos Vereadores de segunda-feira, o áudio de um vereador que acompanhava os trabalhos remotamente vazou, deixando que todos ouvissem sua fala: “Não lava nem a calçada. Coisa de preto, né?”. A esses fatos soma-se o mais grave e nefasto de todos eles, praticado por uma família santista contra uma idosa de 89 anos, negra, mantida em condições análogas à escravidão durante 50 anos. São relatos demais para imaginar que se tratam de fatos isolados. A uma semana do 13 de maio, quando se completam 133 anos da abolição dos escravos, é vergonhoso mas realista dizer que ainda muito a sociedade precisa caminhar e evoluir. E não só no Brasil, mas em quase todos os países onde negros foram subjugados durante séculos, e ainda hoje lutam por espaço, por trabalho digno, por respeito. Quando foram implantadas, as políticas de cotas para negros ingressarem nas universidades tinham a função de garantir acesso pelo tempo necessário à instalação do equilíbrio de forças, de oportunidades, de educação, mas a julgar pela constatação do que ocorre em variadas cenas urbanas, é possível prever que a manutenção dessas políticas ainda perdurará por muito tempo. Crimes de racismo e injúria racial são tipificados com distintas definições e penalidades, mas ambos têm por foco combater as reminiscências de uma época em que pretos e brancos eram tratados de forma distinta. Os casos relatados aqui são apenas aqueles que viram notícia, que caem nas redes sociais, mas uma infinidade deles deve ocorrer no anonimato, quer porque suas vítimas têm vergonha de relatar ou denunciar, quer porque seus autores tratam de apagar provas de tê-los cometido. Não cabe mais abafar esses casos, tampouco relaxar no cumprimento das penalidades. Tal qual os episódios de violência doméstica hoje já têm o foco e a revolta da sociedade, também os praticados contra os negros devem ter.