A facilidade com que agiu o grupo suspeito de hackear as principais autoridades do Legislativo, Executivo e Judiciário mostra o descuido com que o alto comando do País lida com a instituição pública. Os dados foram vazados via Intercept e, se mais informação de interesse público estiver disponível, a imprensa acabará por divulgá-la. Entretanto, a forma como o conteúdo foi obtido precisa ser muito bem apurada. A investigação da Polícia Federal indica que um dos hackers, ao compreender o material que tinha em mãos, procurou Manoela D’Ávila, intermediária da fonte com o jornalista Glenn Greenwald. Isso deu munição a teses de uma grande conspiração ou vingança da esquerda contra os chefes dos poderes públicos, ainda mais que o principal suspeito tem a alcunha de Vermelho. Porém, é um espanto como a bisbilhotagem deu certo, avançou com facilidade e atingiu quase toda a cúpula federal. Conforme o jornal O Estado de S.Paulo, o líder dos hackers tomou gosto por invadir celulares de autoridades a partir de uma vingança pessoal. O primeiro alvo foi um promotor de Araraquara, que o denunciou e o levou à condenação por crimes rasos, como falsificação de documentos, porte de drogas e carteira de estudante falsa. O investigado também respondeu por outras ilegalidades que indicaram disposição para, no modo ainda analógico, usar carteira de delegado falsa e cartão de crédito de terceiros. Mas Vermelho decidiu avançar por meios digitais, conforme ele próprio confessou à PF – acessou os contatos do celular do promotor e depois chegou aos telefones das grandes autoridades do País. É de espantar como os poderosos se mostraram vulneráveis às novas tecnologias do crime. Independentemente se houve motivação financeira ou ideológica, presidente, parlamentares e ministros de Governo e da Corte precisam ter zelo pelos dados que compartilham. Além de serem utilizados para intrigas palacianas, podem expor informações estratégicas que favoreceriam empresas específicas, o crime organizado e países com interesses opostos. Segundo fontes de segurança palacianas, Jair Bolsonaro e o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, recusaram novos telefones e decidiram continuar com os antigos, dos tempos em que eram deputados e não tinham a importância que possuem hoje. No caso do Parlamento, o sigilo não é um bem precioso e a conversa ao pé de ouvido é um costume histórico. Hoje, porém, ela fica registrada nos aplicativos de mensagem. Contudo, choca imaginar que os ministros do STF estejam sendo hackeados – esses sim em posição constrangedora, pois o silêncio é uma obrigação até a sentença. Agora, fica a expectativa de que, uma vez provada a vulnerabilidade eletrônica de nossas autoridades, que elas assumam novos padrões de comportamento com os aparatos de segurança e convençam os demais a adotarem condutas mais zelosas.