[[legacy_image_262811]] Com o mundo em turbulência por seguidas crises diplomáticas, algumas delas responsáveis por produzir guerras intermináveis, é de se louvar a atitude do presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa. Segundo ele, seu país deveria pedir desculpas e assumir um papel de maior responsabilidade pelo comércio de escravos. Entre os merecedores do pedido de perdão estaria o Brasil, também vítima das demais chagas decorrentes do processo de colonização que proporcionou a prosperidade do império em tempos remotos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A afirmação foi feita na última terça-feira, durante a comemoração anual da Revolução dos Cravos, que derrubou a ditadura portuguesa em 1974.Trata-se de um gesto relevante, por tudo o que envolve e significa a ocasião, na presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e demais autoridades brasileiras. De acordo com o Banco de Dados do Comércio Transatlântico de Escravos, cerca de 4,86 milhões de escravos vieram somente para o território brasileiro entre os séculos 15 e 19. Admitir os erros do passado é uma postura não apenas simbolicamente admirável, mas também capaz de gerar de efeitos práticos, pelas consequências positivas que pode provocar a título de exemplo. Por mais impensável e improvável que seja, o gesto de Marcelo Rebelo de Sousa poderia inspirar a Rússia em sua indesculpável invasão à Ucrânia. Do lado do governo brasileiro, que dá sinais de que aprendeu que não deve igualar invasor e invadido ao falar de paz e ao comentar conflitos, a moderação parece ter ganhado vez. Lula anunciou que vai enviar o assessor especial da Presidência e ex-chanceler Celso Amorim para um encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Amorim foi à Rússia no início do mês e se reuniu com o presidente Vladimir Putin, dias antes de o chanceler russo, Sergei Lavrov, vir ao Brasil e ser recebido pelo próprio Lula. Outra atitude positiva no sentido de pacificar o conflito no Leste Europeu aconteceu ontem, quando Zelensky anunciou nas redes sociais ter tido uma “longa e significativa” conversa por telefone com o presidente da China, Xi Jinping. Trata-se da primeira conversa entre os dois líderes desde o início da guerra. Como é sabido, a China não é somente responsável pela economia que mais cresce nos últimos anos, regime de governo à parte, mas também aliada de primeira hora da Rússia. Conciliar culturas e anseios divergentes nunca foi nem nunca será uma missão simples. A história da humanidade, desde os seus primórdios, é rica em episódios nos quais a intransigência e a intolerância, que vêm depois do exaurimento do diálogo, deixaram milhares de vítimas e legaram dor e ódio também às gerações futuras. Dessa forma, o remédio passa pelo entendimento do papel de cada um dos envolvidos nos conflitos e pela disposição daqueles que observam de longe em escolher as palavras certas na tentativa de colaborar.