Não houve surpresas a respeito do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019 no Brasil. O mercado já esperava número próximo a 1%, mas é inegável que o sentimento de frustração é muito grande: afinal de contas, as estimativas, há um ano, eram de avanço maior, que superaria 2%, segundo o governo. Alguns fatores contribuíram para que a meta fosse comprometida: o desastre de Brumadinho, a recessão na Argentina, que afetou a exportação de produtos industrializados, a guerra comercial entre China e Estados Unidos. Mas, além disso, é preciso reconhecer que há problemas estruturais graves na economia brasileira, que acabam por comprometer o crescimento econômico. O PIB nacional cresceu apenas 1,1% em 2019, inferior ao registrado nos dois anos anteriores (1,3%). O ritmo da expansão desacelerou no final do ano, comprometendo ainda mais o resultado, e a taxa de investimento da economia brasileira caiu 3,3% no quarto trimestre, em relação a igual período de 2018. O crescimento do consumo das famílias foi de apenas 0,5%, inferior ao observado no trimestre anterior. Setores essenciais, como a indústria e o comércio exterior, enfrentam dificuldades. Embora o setor industrial tenha registrado pequeno avanço no ano – 0,5% – o peso da indústria de transformação é cada vez menor: ele representava 17,8% do PIB em 2004, e recuou para somente 11,0% em 2019. As exportações caíram 2,5% no ano, e já há projeções que 2020 pode ser o quarto ano consecutivo em que o setor externo tem contribuição negativa para o PIB do País, ou, no máximo, efeito neutro. A construção civil, que vinha em recuperação nos últimos meses, e fechou o ano com crescimento de 1,6% (primeira taxa positiva desde 2013), foi surpreendida com um dado muito negativo no quarto trimestre de 2019, com queda de 2,5% em relação ao terceiro. O setor público, diante das dificuldades orçamentárias, também gastou menos, e as compras governamentais caíram 0,4% no ano. A recuperação é muito lenta. O PIB per capita cresce, desde 2017, a uma taxa média de 0,4% ao ano (em 2019) foi ainda menor (0,3%), e o valor atual é 7,4% inferior ao de 2013, antes da crise econômica. Mantido o atual ritmo, serão necessários 23 anos para que o PIB per capita recupere as perdas da recessão de 2014-2016. As perspectivas para 2020 não são animadoras: a epidemia de coronavírus representa forte choque de oferta que, no Brasil, afetará principalmente a indústria e os investimentos, exatamente os itens que vem demonstrando fraqueza. As incertezas políticas, com tensões entre o Executivo e o Congresso, comprometem ainda mais o futuro imediato, com repercussão nas reformas tributária e administrativa, importantes para aumentar a confiança dos investidores na economia brasileira.