[[legacy_image_252195]] O discurso da China de que os Estados Unidos estimulam um conflito entre as duas potências deve ser levado a sério, mas precisa ser notado como uma delimitação de terreno. A declaração chinesa, feita em entrevista durante a sessão anual do Congresso do Povo, questiona as tentativas americanas de conter a China, via acesso a tecnologias, como componentes de alta precisão, e limitação de exportações com transferência de indústrias hoje no país asiático para parceiros de “confiança”, principalmente o México. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Do lado brasileiro, em caso de piora da relação entre os dois gigantes militares e econômicos, a tendência é seguir a tradição da neutralidade, o que sob o ponto de vista comercial é estratégico. China e EUA são os dois principais importadores do Brasil, respectivamente com 26,8% e 11,2% do total (Argentina tem 4,6% e União Europeia, 15,2%) e qualquer movimento equivocado teria grande impacto na economia brasileira. O ponto mais delicado é Taiwan, que a China considera uma província rebelde e admite a reunificação por força militar. A ilha é de grande importância tecnológica. Em 2020, o atraso da produção de microchips, usados em automóveis e eletroeletrônicos, devido à covid-19 expôs os riscos da concentração da fabricação mundial de 80% desse item em Taiwan. Por outro lado, a China aos poucos amplia o apoio à Rússia na guerra da Ucrânia, um conflito considerado essencial pelo Ocidente para impedir a expansão militar de Moscou. O que para muitos não passa de jogo duro de palavras de ambos os lados, na verdade é um movimento bem objetivo de chineses e americanos para uma consolidação dessa nova ordem mundial. Essa disputa está centrada no acesso à tecnologia, com o reforço do controle do Partido Comunista Chinês nesse meio. A estratégia é criar mais agências reguladoras para gerenciar os avanços científicos, o desenvolvimento agrícola e o sistema financeiro. A questão que fica é se a centralização ampliada, que hoje não é pouca, vai funcionar num país imenso e com 1,4 bilhão de habitantes, com muita gente a ser inserida na vida urbana e com acesso a mais informação e necessidade de qualidade de vida. Merece reflexão a rapidez com que o governo chinês cedeu ao inconformismo da população às medidas rígidas da covid-19 e relaxou radicalmente o lockdown das metrópoles. A guerra da Ucrânia tira um pouco o foco do Ocidente sobre o antagonismo entre EUA e China, mas o conflito europeu tem fundamental importância na consolidação da nova ordem mundial. A Rússia, por seu poderio bélico e capacidade de alimentá-lo com o petróleo, passa por um processo de aproximação da China, que dificilmente vai se envolver diretamente na questão europeia. Mesmo que o pior quadro não se configure, de uma invasão em Taiwan, o momento atual é delicado porque está em uma escalada, faltando novos líderes que trabalhem pelo esfriamento das tensões.