[[legacy_image_120595]] O uso de matrizes energéticas sustentáveis é a condição para garantir o futuro das próximas gerações, não há dúvida, mas essa transição exige adaptação de equipamentos e processos, desencadeando uma revolução no próprio capitalismo. Isso vai ter um preço, que deve ser o fim da era das mercadorias baratas espalhadas no mundo pela China. Se o mundo vai modificar uma economia de alta demanda de insumos da natureza, toda uma cadeia industrial, de serviços e de ensino, de formação ou capacitação de profissionais que vão operar essas transformações, exigirá investimentos fenomenais. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Nesse contexto, o Brasil precisa entender o que está em jogo, obviamente sem abrir mão de suas habilidades no mundo atual, mas se adaptando conforme os novos tempos exigem. Há o risco do País caminhar na base do improviso e sob subsídios governamentais. O rumo desejado é de buscar competitividade, como o que já acontece hoje com alguns setores de ponta, como o agronegócio e a aviação. Esse alerta de que daqui para frente os custos da transição ao sustentável vão pesar sobre as empresas é do professor Stephanie Garelli, do IMD, o Instituto de Administração de Lausanne, na Suíça. Garelli tem três décadas de estudos da competitividade mundial, analisando as diferenças entre os países. Em entrevista ao jornal Valor, ele afirma que o aumento do custo das matérias-primas (petróleo, gás natural e carvão, por exemplo) continuará por um bom tempo, assim como na logística - os custos dos contêineres foram multiplicadas em um ano e na Europa há uma falta de 400 mil caminhoneiros, pressionando os salários e aumentando os fretes. Segundo ele, a globalização foi sustentada pelo baixo custo, mas isso não significa que o período de despesas elevadas vai gerar uma desglobalização. Essa nova economia terá que ser mais resiliente e sustentável, ao invés de muito barata. O lucro das empresas não será mais tão elevado, porém isso vai ser amenizado pela robotização, que não beneficiará de forma igual todos os setores. Haverá a possibilidade das empresas transferirem para os clientes a alta dos custos. Entretanto, há questionamentos agora bem mais profundos, como o respeito à sustentabilidade e à ética. Além disso, os países estão mais preocupados em desenvolver por conta própria algumas tecnologias, ao invés de importá-las, e consumirem a produção das imediações. Tudo isso está sendo moldado não só pelo combate ao carbono (por exemplo, consumir da produção local ou mais próxima para reduzir o impacto do transporte), mas também pelas causas caras à sociedade, ou pelo menos parte dela, como proteção das matas ou remunerar adequadamente os trabalhadores de regiões pobres. Essa transição leva tempo, porém, seu ritmo vai depender das pressões da sociedade por meio dos consumidores, que estão altamente conectados e com facilidade para expor seus princípios.