[[legacy_image_288413]] No Brasil, a cada R\$ 100 emprestados por meio do rotativo do cartão de crédito (quando o usuário paga apenas uma parte do valor da fatura, incidindo juros no que sobrou), R\$ 49,10 não serão recuperados pela instituição financeira devido ao calote, conforme dados do mercado. A inadimplência de quase metade do que é financiado explica o motivo dessa linha de crédito ser a mais cara do Brasil, com juros de 437% ao ano. Com base nesse percentual, quem emprestar R\$ 100, no fim de 12 meses deverá R\$ 537. Apesar de ser tão cara, essa modalidade está entre as que mais cresceram – de junho de 2020 a igual mês deste ano, sua contratação avançou 108%, movimentando R\$ 30,2 bilhões. São números que indicam uma distorção preocupante na economia brasileira e também do nível de endividamento, hoje de 70% das famílias, conforme pesquisa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomércioSP). Por isso, houve até um alívio quando o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, afirmou na semana passada que pretende extinguir o rotativo do cartão. Mas falta saber a que tipo de financiamento o atual público dessa linha recorrerá. Até 2017, a modalidade funcionava como um complemento de renda, sendo reutilizada quando se recebia o salário para quitar parte da fatura e financiar a sobra, fazendo assim meses a fio. Desde 2017, assim que o consumidor tem a segunda fatura no rotativo, os bancos são obrigados a transferir a dívida para um parcelamento de juros menores, mas nada baixos – hoje de 196,1% ao ano. Assim, o problema acaba não sendo resolvido, levando ao endividamento com outros tipos de empréstimos. O que impressiona é como as autoridades e o próprio mercado deixam circular produtos com taxas tão abusivas. Claramente quem se sujeita a elas por muito tempo tem sérios problemas de (falta de) educação financeira que precisam ser sanados com a ajuda de especialistas. Altos níveis de calote podem minar uma economia inteira, reduzindo os efeitos benéficos de uma capacidade saudável de consumo. O programa Desenrola, que, segundo a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), renegociou R\$ 8 bilhões e limpou o nome de 7 milhões de inadimplentes (não são mais negativados, mas terão que pagar a dívida acordada), é um excelente caminho para sanear o segmento de crédito. Porém, quem garante que ex-endividados não se tornarão reincidentes? Sem conhecimento, o risco de se cometer os mesmo erros para obter financiamentos instantâneos, mas caros, poderá se repetir. Com a ideia de acabar com o rotativo, um grupo formado pelo BC, Ministério da Fazenda e bancos apresentará uma proposta de solução em 90 dias ao Conselho Monetário Nacional (CMN). Um programa educativo e limites e análise mais rigorosa do perfil do tomador de crédito precisarão estar entre as propostas.