[[legacy_image_249570]] Os juros altos por muito tempo funcionam como um veneno para a economia. O crédito fica mais caro e os investimentos financeiros rendem mais sem se correr grande risco. Assim, o consumidor prefere poupar a gastar e o empreendedor deixa seu dinheiro no banco em vez de abrir um negócio sem ter a quem vender. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Entretanto, com a Selic a 13,75% ao ano, as grandes e médias companhias passaram a apostar em uma alternativa aos empréstimos de taxas altas do setor bancário, que é o lançamento de debêntures, títulos do setor privado que pagam uma remuneração daqui um ou mais anos. Com essa captação, as empresas quitam dívidas antigas a juros mais baixos ou levantam capital suficiente para ampliar sua produção ou prestação de serviços. Porém, o Brasil é um país cheio de surpresas e uma das mais inesperadas foi uma crise chamada Americanas. Controlada por um trio com os maiores bilionários brasileiros, descobriu-se que a empresa devia ao redor de R\$ 40 bilhões que não estavam devidamente esclarecidos em seu balanço. Foi o estopim da desconfiança do mercado financeiro, especialmente no segmento de varejo. Em poucas semanas, outras varejistas relataram dificuldades, a elétrica Light revelou perdas com o roubo de energia no Rio de Janeiro e duas financeiras foram liquidadas pelo Banco Central. No fim das contas, os bancos, que há tempos demonstravam preocupação com calotes, sentiram o Efeito Americanas optando por provisões bilionárias, um dinheiro que é separado do caixa para cobrir inadimplência e, na prática, deixa de ser emprestado. Na outra ponta, os investidores de debêntures ficaram desconfiados e muitas companhias que planejavam fazer captações para seus projetos decidiram adiá-las até o mercado se acalmar. Como consequência, pior será se neste ano as empresas suspenderem seus investimentos na atividade produtiva, com reflexos na geração de empregos, arrecadação de impostos e expansão do PIB. Trata-se de um nó que o setor financeiro precisa desatar com os outros ramos da economia, como o industrial e o varejista. Do governo, espera-se o equilíbrio fiscal, evitando anúncios que indiquem aquecimento da inflação ou gasto público desenfreado. Apesar de o presidente Lula ter retirado de seu discurso as críticas aos juros altos do Banco Central, muitos executivos e empresários devem neste momento torcer para que o petista consiga logo reduzir a Selic. A então presidente Dilma Rousseff já utilizou do artifício de cortar as taxas à força, com a inflação retornando e a Selic subindo de novo. Segundo analistas ouvidos pelo jornal Valor, a tensão no segmento de títulos privados não deve durar muito. Porém, o governo precisa dar sinais de caminho pelo rumo certo, com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, com a blindagem necessária para fazer os ajustes que a máquina estatal e a toda a economia precisam.